A pandemia chegou como um tsunami, virando tudo de cabeça para baixo e nos desafiando como nunca antes, em todas as dimensões de nossas vidas e das sociedades como um todo. A educação não foi exceção.

No Brasil, um país onde de um lado da rua Ferraris e Porsches circulam em meio a prédios de alto padrão, e do outro lado pessoas pedem esmola, vivendo em casebres sem luz e água, o impacto de uma pandemia como a do Coronavírus é muito mais devastador. Levando essa desigualdade para o âmbito escolar, há escolas 100% digitalizadas, com wi-fi em todas as suas dependências, dispositivos móveis para todos os alunos e aulas online institucionalizadas, que representam menos de 10% do total de escolas do país; e há um grande contingente de escolas que mal têm carteiras nas salas, onde falta papel higiênico e sabonete, e que têm alunos que as frequentam pela comida que é oferecida no local.

Para as escolas no topo da pirâmide social brasileira, o desafio do ensino 100% remoto e abrupta e obrigatoriamente institucionalizado no país representou um desafio imenso sim. Isso porque, por mais bem estruturadas e teoricamente “digitalizadas” em termos de infraestrutura, a cultura digital ainda não existia numa profundidade que permitisse que essa mudança radical pudesse ser assimilada suavemente. Nossos conceitos educacionais, nossa visão de escola e, principalmente, nossa visão acerca do uso do digital para a educação ainda são muito arcaicos. MUITO. A ponto de termos muitas escolas que ainda proíbem os alunos de levar aparelhos celulares para as aulas. A própria escola não acredita que o digital possa ser um aliado importantíssimo para a aprendizagem dos alunos, simplesmente porque ela não consegue escolarizar o digital, ou analogizar o digital. Nosso mindset analógico é inútil no mundo digital. É preciso reaprender, e muitas vezes aprender com os próprios alunos, sobre como o digital pode ser usado em contextos de aprendizagem.

Dito isso, encontramos vários problemas na implementação de um ecossistema remoto para as aulas nessas escolas. O principal exemplo: os tempos do digital não são os mesmos do presencial. Não é factível, realístico, plausível, querer que os alunos fiquem em frente a um computador assistindo as mesmas aulas que eles iriam assistir presencialmente, por 5 horas ininterruptas por dia. É uma violência com o aluno submetê-lo a isso. Mas é o que muitas escolas fizeram. O ensino digital precisa ser fragmentado, multifacetado, com alternância entre momentos síncronos e assíncronos. Ao invés de 5 ou 6 horas por dia, uma ou duas horas com conteúdos quebrados em vídeos, podcasts, pesquisas online; atividades lúdicas como jogos, ambientes gamificados – leia a série de posts de meu colega Diego para entender a lógica dos games – realidade virtual, realidade aumentada… Essas duas horas divididas em atividades assim, que possam ser feitas de forma assíncrona em sua maioria, apenas com alguns momentos síncronos de introdução, ou tira-dúvidas, ou compartilhamento de conhecimentos adquiridos, valerão muito mais que 5 ou 6h de aula presencial filmada ou ao vivo, que ninguém aguenta assistir inteiramente.

Há vários outros problemas relacionados a essa tentativa de usar o mindset analógico no digital, mas acredito que o que acabei de comentar tenha sido o principal erro estratégico cometido nas escolas privilegiadas – no topo da pirâmide – em nosso país.

Para essas escolas o ano foi perdido? Ainda que com os equívocos gerados pela ausência de uma cultura digital, isso não é verdade. Com o tempo algumas escolas foram aprendendo e foram adaptando sua prática ao mundo digital. Os próprios alunos buscaram estratégias para conseguirem absorver o conhecimento que necessitavam para seu desenvolvimento acadêmico e humano. Pesquisas recentes demonstram que, se por um lado o ensino 100% remoto perde em relação ao ensino presencial, por outro os alunos conseguiram aprender muito mais do que se pensava originalmente. Portanto não foi um ano inteiramente perdido. Se além disso as escolas puderam aprender com essa experiência, se conseguiram iniciar a construção de um mindset e de uma cultura digital e se, quando a pandemia acabar, possam integrar o digital ao presencial de forma mais natural e fluida, teremos tido avanços significativos. Isso, só o tempo dirá.

Mas e as escolas dos alunos do outro lado da rua? Aquela sem carteiras, sem papel higiênico e sabonete? As escolas da base da pirâmide?

Infelizmente não há ainda estudos que permitam quantificar o impacto da pandemia nessas escolas. O que temos visto nos noticiários são histórias de atos heroicos de professores e de alunos dessas escolas lutando contra todas as adversidades para ensinarem e aprenderem. Há milhares de herois como esses espalhados por essas escolas desfavorecidas. Mas se pensarmos em termos gerais, o impacto da pandemia nessas escolas foi devastador. Primeiramente há um evidente impacto no aprendizado dos alunos. Imagine um ensino remoto sem internet? É possível isso? Como fazer esse ensino remoto chegar a todos os alunos, se muitos não têm acesso à internet? Se as próprias escolas não possuem infraestrutura para produzirem aulas remotas? Além disso, há consequências crueis no fechamento dessas escolas para todas as famílias com filhos nelas. Crianças deixadas sozinhas em casa porque seus pais precisam trabalhar; crianças passando fome por não receberem a merenda escolar; familiares precisando deixar o emprego para ficarem com seus filhos, perdendo ainda mais suas já combalidas rendas…

Esse impacto é imensurável, doloroso e muito, muito triste. Para essas escolas, mais do que um ano escolar perdido, houve ainda mais degradação econômica e social para quem já vive à margem da sociedade, para as famílias e comunidades que dependem dessas escolas para darem um mínimo de esperança e dignidade a seus filhos e filhas.

Como conclusão, se você vive em sua bolha no topo da pirâmide social brasileira (como eu), não se preocupe: o ano escolar de seu filho ou filha não foi totalmente perdido. E há aprendizados importantes que podem levar a educação privada do país a um outro patamar, mais alinhado com as novas tendências e necessidades das gerações do século XXI. Por outro lado, se sua realidade é a da maioria da população brasileira, teríamos que analisar seriamente o quanto esse ano pode ser efetivamente aproveitado ou não, porque na base da pirâmide a realidade foi muito mais dura, mais cruel, e com efeitos muito mais nefastos e que transcenderam aqueles meramente educacionais. Que ano…