Tempos de crise exigem criatividade, para que possamos transformá-la em oportunidade. Esse quase clichê do mercado não tem sido observado com cuidado ou mesmo seguido pelo mercado educacional.

A carência de uma visão de futuro do segmento escolar é impressionante, mesmo em tempos de crise. Não é à toa que se discute há alguns anos o papel da escola no mundo de hoje. Isso acontece porque a escola se recusa a assumir a responsabilidade por estar à frente. Independente de fatores econômicos ou do tipo de escola, se privada ou pública, não há uma preocupação com a diminuição do abismo entre o que a escola faz e o que o aluno precisa realmente quando sai dela. Continuamos replicando modelos obsoletos, que sabemos que são insuficientes, por comodidade, ou por acharmos que esse abismo não ameaça a própria existência da escola.

Na dimensão docente, a conjuntura extremamente desfavorável na qual os professores estão inseridos hoje, com sobrecarga de trabalho e remuneração insuficiente, colabora muito para um sentimento de “vou fazer o mínimo necessário”. Essa atitude gera um comodismo engessante difícil de ser rompido. Não discuto e concordo totalmente com a conclusão de que nossa Educação, e por consequência nossa classe docente, estão marginalizados e sucateados. Mas falta aí um sentimento, uma motivação intrínseca que precisa existir em qualquer educador que se preze e que não depende de condições de trabalho ou de remuneração. Queremos fazer a diferença na vida das próximas gerações. O educador de verdade precisa ter essa chama dentro de si, inapagável. Precisa ter essa inquietude e usar isso para efetivamente desenvolver cidadãos donos de seus destinos. E aí, seja com caixas de ovos ou com tablets e aparelhos celulares, o educador conectado com o mundo atual e com as necessidades das novas gerações nesse mundo fará a diferença. Essa categoria de educador está cada vez mais escassa, infelizmente. Oprimido, subjugado, seja pela escassez de recursos, seja pela submissão da escola às famílias, o docente está se limitando a trabalhar o conteúdo pelo conteúdo, a cobrir o que há nos livros, a preparar para provinhas e exames.

Na dimensão do gestor escolar, a miopia é ainda maior. Na rede pública a falta de recursos não pode ser justificativa para a limitação metodológica ou didática. Metodologias e didáticas não dependem de equipamentos ou ferramentas sofisticadas; estes ajudam sim na implementação de algumas delas, mas com criatividade e flexibilidade pode-se trabalhar a grande maioria das chamadas metodologias ativas com recursos escassos, desde que o recurso humano esteja disposto – e tenha conhecimento sobre essas metodologias. E se os docentes não tiverem esse conhecimento, cabe ao gestor providenciar meios para que tenham. A revolta, a inconformidade com o descaso governamental para com os educadores e gestores escolares não podem se refletir em uma escola estagnada, vazia de espírito. Porque o espírito está nas pessoas, e elas são quem transformam a realidade. O gestor da escola pública deve ter inquietude, ansiedade por novas ideias, pela criatividade que dribla a escassez. Não pode curvar-se à onda sufocante de desprezo e marginalização; precisa sim buscar permanentemente por caminhos alternativos para trazer a seus alunos a educação que transforma de verdade.

Na rede privada o fenômeno que ocorre é ainda mais desalentador. As escolas particulares viraram reféns de seus clientes, as famílias. Estas, leigas que são com relação à Educação e sua evolução ao longo das décadas, possuem um mindset da escola pautado no que viveram quando estavam em idade escolar. Esse é um paradoxo que tem atormentado as escolas, mas é um falso dilema, alimentado pela terrível dificuldade de comunicação com as famílias. Ora, se sabemos que as famílias não têm o conhecimento aprofundado em relação aos processos educativos e sua evolução ao longo do tempo, é responsabilidade da escola EDUCAR AS FAMÍLIAS. A escola precisa chamar as famílias para o diálogo, demonstrar, provar com evidências, e apresentar as evoluções e as novas necessidades das novas gerações em um novo mundo, volátil e cheio de incertezas. Mas ao invés disso, o que temos visto são escolas incapazes de se comunicarem adequadamente com as famílias, seus próprios “clientes”. E sabemos que, no mercado, quando as empresas não conseguem se comunicar com seus clientes, estas estão fadadas ao fracasso. O resultado dessa falta de comunicação com as escolas é a total submissão das mesmas às famílias. Nesse cenário, nenhuma inovação prospera, pois sem a informação adequada às famílias ela causa estranheza, críticas, frustração de expectativas. Então, ao invés de melhorar a sua comunicação, a escola decide acatar o que as famílias querem, e então as escolas viram as instituições anacrônicas que temos visto, onde é proibido usar celular por exemplo, e continuamos com um ensino conteudista e superficial, baseado na memorização, no melhor modelo massificante da Era Industrial. O problema aqui não é falta de recursos: há escolas com dispositivos móveis, tablets, Chromebooks, laptops, wifi disponível… o problema é não saber impor o seu expertise às famílias. Essa postura fortalece o mito de que qualquer um pode ser educador, qualquer um pode ser professor… porque aparentemente as famílias imaginam saber o que seus filhos precisam, ou como devem estudar, pois pressionam as escolas e as mesmas cedem, retrocedem em suas inovações, ao invés de resistirem e informarem melhor, comunicarem melhor. Se as famílias dizem às escolas como devem educar seus filhos, ora, é lógico pensar que qualquer um poderia educar… e com isso esse círculo vicioso segue, com escolas anacrônicas e ensino defasado, e todo mundo querendo “dar pitaco” na educação…

https://edutechtalks.com/the-smart-school-journey-investment-opportunities-challenges/.

As famílias dentro desse ecossistema são as menos culpadas e mais subvalorizadas e subestimadas. Seja na rede pública ou na rede privada, precisamos, devemos, é imperativo e urgente que comuniquemos melhor com as famílias para que estejam mais próximas da escola, para que sejam parceiras das inovações e trabalhem em prol das melhorias necessárias para a escola. Na rede particular falo isso por experiência própria. Várias vezes pedi aos gestores escolares que me dessem a oportunidade de conversar com as famílias sobre inovações que seriam implementadas nas escolas. Foi bastante difícil vencer a resistência da gestão: havia um verdadeiro pavor de falar com os familiares, dando a entender que eu seria massacrado nessas conversas e que não haveria diálogo. Uma enorme injustiça com os pais. Ora, sou pai de três! Sei o que importa para as famílias. Sei que, na grande maioria, as famílias querem oferecer o que há de melhor para seus filhos, para que sejam bem sucedidos em suas vidas no futuro. Sabendo disso e com a convicção de que as inovações a serem implementadas representariam uma evolução nos processos educativos dentro de cada escola, partia para uma conversa aberta com as famílias, em auditórios lotados de pais que inicialmente pareciam desconfiados e curiosos, mas ao primeiro sinal de que sabíamos o que estávamos fazendo enquanto especialistas em educação, e que estávamos trazendo o melhor para seus filhos, a desconfiança dava lugar à euforia e à parceria. Adoro conversar com as famílias, porque criamos com elas laços que nos permitem fazer qualquer coisa na escola. Quando as famílias confiam na escola e reconhecem nos educadores os especialistas que são em educação, o jogo muda. E vira a nosso favor, a favor das inovações.

E a visão? A visão, ou a falta dela, soma-se à conjuntura descrita nos parágrafos anteriores. O gestor escolar ainda é um ex-educador que adora dizer que é professor, mas que ainda não tem a visão de negócio de seu empreendimento. Escolas particulares são negócios. Não é pecado ou crime ganhar dinheiro com educação, como não é pecado ganhar dinheiro com nenhum outro negócio. O importante é ganhar dinheiro com uma educação verdadeiramente eficiente. Uma das frases mais tristes que ouvimos frequentemente é: “o professor finge que ensina e o aluno finge que aprende”. Isso é o que devemos evitar e até lutar contra. A visão romântica da educação muitas vezes prejudica o conceito de empresa que o gestor escolar precisa ter, sob pena de falir seu negócio. O gestor escolar precisa ver sua escola como uma empresa. Uma empresa possui despesas, custos, e realiza investimentos. E o que é um investimento? Investimento é um aporte financeiro feito em algo – uma melhoria, um novo empreendimento, contratações, entre outros – em que se espera ter um retorno após um determinado tempo. É o chamado ROI – Retorno sobre o Investimento. Esse retorno não vem imediatamente: pode levar de meses a anos, e geralmente é previsto antes do investimento em si. Sendo assim, o investimento não pode ser um montante que precisa ser recuperado num curto espaço de tempo.

Há uma máxima na Administração que diz que não há crescimento sem investimentos. E ela se aplica à escola também. Aliás, toda a lógica de gestão de negócios é aplicável à escola, principalmente à escola particular. Portanto, se uma escola visa algum tipo de crescimento, ela precisa garantir um nível de investimento anual.

O grande problema na gestão escolar é a confusão estabelecida entre o investimento e a despesa. As despesas são os gastos necessários para a manutenção do negócio: custos fixos, variáveis, impostos, etc. Já o investimento é o que se gasta para o crescimento do negócio. E cada investimento tem um tempo para ser recuperado em ROI. A escola, via de regra, mistura tudo e tende a querer transferir para seu cliente os gastos com investimento. Dentro de uma composição, é possível incluir parte dos investimentos na precificação de seu produto, embora não seja o normal. O normal é utilizar recursos provenientes do lucro líquido para isso. Ou seja: quando a escola evita investir em um novo sistema, uma nova infraestrutura ou mesmo em pessoal porque não quer repassar esses gastos para as famílias, está fazendo uma conta errada, e pode pagar caro por isso. Repito: empresas que não investem acabam estagnadas. E o melhor momento para investir não é, ao contrário do que a maioria pensa, em tempos de bonança. É na crise que se investe, para dela sair o mais rápido possível. E é nas “vacas gordas” que se guarda recursos para poder investir quando a crise vier.

O investimento mais percebido nas escolas hoje é principalmente aquele em inovação. A sociedade Pós-Industrial exige criatividade, inovação, e desenvolver essas competências em nossos alunos é fator crítico de sucesso, mais do que a nota no ENEM ou a aprovação no vestibular. Inovar, em algumas escolas, começa tão somente por se atualizar. Sim, porque pelo cenário que desenhamos anteriormente nossos filhos estudam em escolas com pelo menos uma geração de atraso. Para diminuir essa diferença, é preciso inovar. É preciso fazer o que não estamos fazendo, e que muitos países já fazem há algumas décadas. É reconhecer nosso atraso e trabalhar para oferecer uma preparação minimamente eficiente para as próximas gerações. E isso só acontecerá com investimentos de verdade, com visão de futuro e com a aproximação, melhor comunicação e parceria inevitável com as famílias.