Muitas tem sido as discussões, a bem da verdade muitas das discussões totalmente inócuas, sobre como será a escola do futuro. Para mim, a escola do futuro não existe.


Explico: a escola que temos hoje, calcada num conceito de muitos séculos atrás, originário do militarismo e com forte influência das linhas de produção de Ford, não tem mais espaço em nossa sociedade.

Mais: ela não responde mais às demandas que temos em nosso mundo contemporâneo. A escola tal qual a temos hoje mostrou-se muito eficiente para aquele contexto. Produzia maciçamente pessoas habilitadas a trabalhar nas linhas de produção e com valores de disciplina e moral diretamente relacionados à cultura militar. Não se preocupava com o desenvolvimento de criticidade; nem era desejável desenvolvê-lo.

Tampouco era a intenção da escola preparar cidadãos aptos a transformar a realidade que os cercava. A missão da escola era garantir a transmissão da cultura e das tradições para as gerações futuras. Em última instância a escola tinha como objetivo manter, jamais questionar, o status quo. Na conjuntura em que a escola dos séculos passados existia, a sociedade se assentava, entre outros pilares, na cultura e na tradição existentes. Essa conjuntura conservadora, em que qualquer questionamento à ordem vigente ou aos conceitos que determinavam o establishment era severamente punido – vide a inquisição, as “bruxarias”, Galileu Galilei… – , exigia das escolas a padronização: de pensamentos, de crenças, de costumes e de conhecimento, para que todos tivessem iguais condições de se adaptarem à sociedade vigente à época.


O tempo foi passando e a sociedade foi mudando. Veio a era da informação, a globalização, a glocalização. O mundo diminuiu de tamanho e o tempo passou a correr mais rápido. Tradições passaram a ser questionadas, transformadas, refutadas, e novos conceitos e princípios são construídos. A verdade absoluta deixou de existir por completo.

Os avanços tecnológicos atingem uma aceleração geométrica, e os desafios desse mundo novo não combinam mais com a escola que tínhamos no passado e que, pasmem, continua muito próxima do conceito de escola que temos hoje.

Essa escola do presente sucumbirá em breve e deixará de existir por absoluta inutilidade: os jovens de hoje estão aprendendo mais fora dos limites da escola do que dentro deles.


Mas uma nova escola se desenha para o futuro. Uma escola que pode não ter um espaço físico pré-determinado: ela poderá ser qualquer lugar, estar em qualquer lugar. Uma escola que preparará seus alunos para o imprevisível, o imponderável. Para desafios, obras, empregos que hoje ainda não existem.

Nessa escola não há papeis pré-determinados: quem aprende hoje, amanhã ensinará, e vice-versa. Aprenderemos uns com os outros, de qualquer lugar do planeta, com nossas vivências, nossas experiências, nossas próprias pesquisas. E essa escola não terá nenhum outro compromisso que não seja o indivíduo, o ser humano, suas imperfeições, seus limites e suas potencialidades. E aceitará que, ao contrário da presunção da escola atual, não é possível padronizar o que não é padronizável. Somos diferentes em nossa essência, e o reconhecimento desta nossa condição nos enriquece num processo de aprendizagem e na vida em comunidade, não nos limita, nos permite voar.


Essa escola já existe?


Creio que já há ensaios espraiados pelo planeta. É necessário que os líderes educacionais debrucem-se sobre esse tema, experimentem novas possibilidades, pesquisem o que já existem, busquem adaptar novas ideias aos seus próprios contextos…


O momento é agora. A escola do futuro começa no presente. Ela será cada um de nós, e estará em cada um de nós sendo, portanto, responsabilidade de todos nós. E a escola do presente, se continuar sendo a escola que herdamos do passado, essa sim, inevitavelmente, morrerá.