A pandemia do novo coronavírus é um evento singular que já afetou nossa geração em diversas dimensões. O distanciamento social, como consequência, impôs um novo modo de relacionamento interpessoal que impacta visivelmente, dentre outros aspectos, a nossa saúde física, mental, o modo como nos relacionamos com o trabalho e com o conhecimento. Temos vivido nos últimos 4 meses em um ambiente incerto, em que a escola foi chamada a assumir com ainda maior protagonismo o seu papel de instituição estruturadora do nosso modo de organização social. Mesmo que de modo remoto, à distância, a escola tem sido fundamental em promover condições para que que crianças e jovens continuem a aprender.

São muitos os desafios que se apresentam em nosso horizonte de educadores, na medida em que são cogitadas alternativas para o retorno às atividades presenciais. Em que pesem as decisões e determinações do poder público que indicarão o sinal verde para a reabertura das escolas, o mais sensato a se fazer, talvez, seja reconhecer os limites que já estão impostos pela crise sanitária global, e tratar como prioridade a acolhida de toda a comunidade escolar, em seus anseios e desejos.

Não é possível simplesmente ignorar que nosso país se aproxima da trágica marca oficial dos 100.000 mortos pela Covid-19 e as marcas que já se inscreveram em nós, por tudo o que vivemos até aqui. Esses dramas, ansiedades, medos e histórias estarão presentes em cada sala de aula, pautando diretamente o ambiente em que ocorrem as aprendizagens.

Do ponto de vista prático, para o retorno gradual das atividades presenciais é estratégico compreender que os ajustes no calendário e programas escolares, para muito além das determinações legais, deverão estar a serviço de promover, com segurança, as situações de aprendizagem que não são possíveis sem a interação física. O critério para a definição de quais atividades presenciais devem ser viabilizadas passa pela identificação dos objetivos da aprendizagem entendidos como prioritários. Agora, eles certamente estão mais relacionados ao saber como lidar com as emoções e com a organização do tempo, já que é bem provável que ainda transitaremos em um ambiente híbrido por algum tempo, alternado atividades presenciais e remotas.

Nesse contexto, é necessário uma maior amplitude no olhar para que sejam identificadas novas situações significativas em que a aprendizagem acontece. Já constatamos que, com as atividades remotas, novos conteúdos e habilidades passaram a ser aprendidos, a despeito de qualquer programa curricular previamente estabelecido. A aprendizagem está acontecendo de forma diversa e heterodoxa, na forma, no conteúdo e na amplitude. É importante reconhecer que as diferenças nos ritmos da aprendizagem dos estudantes estão sendo acentuadas com o afastamento social, e mais importante ainda é reconhecer que nossa capacidade de fazer uma avaliação diagnóstica, neste momento, é limitada.

É necessário buscar, com urgência, meios de compreender como as capacidades socioemocionais de estudantes e professores foram afetadas nesse período e como poderão ser desenvolvidas desde já. Em que medida a capacidade de superação da perda das certezas anteriores foi capaz de gerar, em cada um, novas aprendizagens, ou mesmo foi elemento de paralisação, por fragilidade ou dificuldade de adaptação? O diagnóstico dessa realidade é fundamental para que possamos cuidar das pessoas e de como elas passaram a aprender com a nova realidade e encarar isso como uma grande oportunidade para o desenvolvimento de um modelo educacional que atenda às necessidades do nosso tempo.