O desenvolvimento da oralidade em uma língua adicional é sempre motivo de inquietação entre educadores, famílias e até mesmo entre os próprios alunos.
Não parto aqui da concepção de que a produção oral é a mera repetição de palavras ou frases, ou mesmo respostas orais a perguntas cujo foco é verificar a apreensão de estruturas ou vocábulos específicos. A produção oral é aqui compreendida e analisada em seu uso, enquanto prática social. Nessa perspectiva, saber falar uma língua é dominar os gêneros que nela emergiram historicamente.
O gênero, na perspectiva bakhtiniana, é definido por um tipo de enunciado relativamente estável, ou seja, com determinadas regularidades em termos do que é dizível por meio dele (conteúdo temático), sua forma de organização (construção composicional) e sua materialidade linguística (estilo), criado em uma esfera de atividade humana para realizar uma ação social por meio da linguagem (SCHNEUWLY, 2004). Travaglia et al. (2003, p.3), por sua vez, definem o gênero “como um pré-acordo de um grupo social sobre o modo de realizar algo linguística e discursivamente por meio de textos”.
O gênero oral, foco deste texto, é aquele que foi produzido para ser realizado oralmente, utilizando-se a voz humana, independentemente de ter ou não uma versão escrita (TRAVAGLIA et al., 2003). A esse respeito, Schneuwly (2004, p.117) salienta que por sua natureza multiforme, o oral não existe, o que existem são os orais, uma vez que as atividades de linguagem realizadas oralmente diferem fundamentalmente em relação às estruturas sintáticas e textuais, à utilização da voz e à associação com a escrita.
Nesse sentido, o autor esclarece que trabalhar com os gêneros orais propicia o desenvolvimento de capacidades diversas que podem dar ao aluno acesso a uma gama de atividades de linguagem. Mas quais gêneros orais ou quais atividades escolher?

É importante a compreensão de que há gêneros orais que (i) são escritos para serem oralizados, como as notícias para jornais no rádio e na TV, (ii) são orais em sua origem, mas ganham registro escrito para serem preservados ou divulgados, como as piadas e (iii) são sempre orais e não têm versão escrita como os repentes (TRAVAGLIA et al., 2003).

Os gêneros orais estão organizados por esferas de atividade humana, como a esfera das relações do dia a dia, na qual temos a entrevista de emprego, os recados, o conselho, o convite, o agradecimento, entre outros. Na esfera do entretenimento e literária, alguns exemplos são a cantiga de roda, a piada, a parlenda e o bingo. Nas esferas escolar e acadêmica, temos avisos feitos em sala de aula, a exposição oral, o debate de opinião, etc. Outras esferas de atividade humana são a esfera religiosa, militar, médica, jornalística, jurídica / forense, dentre outras.

A partir desse arcabouço teórico, o trabalho com gêneros oportuniza aos alunos, se planejado e desenvolvido adequadamente, meios de análise das condições sociais efetivas de interação. Além disso, fornece, como aponta Schneuwly (2004), um quadro de análise de conteúdos, da organização do texto e das sequências que o compõem, das unidades linguísticas e das características específicas da textualidade oral.
De forma geral, o trabalho com a oralidade no Brasil, seja na língua de nascimento dos alunos ou na língua adicional, sempre foi bastante negligenciado e ocorre muitas vezes incidentalmente, durante atividades diversas e pouco controladas. Defendo aqui a ideia de que ensinar um gênero oral não é simplesmente ensinar o aluno a se comunicar, mas também e principalmente, formar sujeitos agentes e transformadores, com possibilidades mais amplas de atuação no mundo.
Referências
SCHNEUWLY, B. Palavra e ficcionalização: um caminho para o ensino da linguagem oral. In: SCHNEUWLY, B. & DOLZ, J. Gêneros orais e escritos na escola. Tradução e organização Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2004.
TRAVAGLIA, L. C. et al. Gêneros orais – conceituação e classificação. Olhares & Trilhas, Uberlândia, vol. 19, n. 2, p. 1-8, jul./dez. 2013. Disponível em: http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/wp-content/uploads/2014/04/silel2013_1528.pdf. Acesso em: 20 jun. 2020.