A característica bi/multilíngue é fundante e intrínseca à espécie humana. Contudo não se trata apenas de uma capacidade mental, mas de um construto sócio-histórico tornado possível por uma série de características biológicas, sociais e psicológicas.

Qualquer abordagem que nos permita dar conta desse fenômeno humano importantíssimo -ontem, hoje e amanhã – deve partir de uma visão de totalidade do humano, enxergando-o do ponto de vista individual e coletivo.

O indivíduo humano adiciona línguas e linguagens ao seu repertório para ser e funcionar cada vez melhor em três níveis:

1. O nível do pensamento autoconsciente, isto é, da organização de uma fala interior que lhe permita cada vez maior abstração, generalização e ramificação de relações entre fatos, ideias, conhecimentos e representações.

2. O nível da capacidade de agir nas práticas sociais, de conhecer seus parâmetros, regras, funcionamentos e modos de fazer, tendo acesso a tudo que é comentado ou discutido. Ou tendo a possibilidade de acessar a pluralidade de questões humanas relevantes.

3. O nível do discurso e da comunicação. Para agir eficazmente com as línguas precisamos não apenas saber sobre as línguas, mas sobre os discursos, isto é, sobre a força das mensagens e de quem as diz. Entender sobre quem tem legitimidade para falar determinadas coisas e as suas intenções e motivações. Inclusive as nossas próprias.

Acredito que uma Educação Bi/Multilíngue deve priorizar esses aspectos práticos e sociais do uso dinâmico das línguas e do acesso que elas permitem ao mundo das obras culturais.

Os resultados de nossas pesquisas apontam para a forte influência dos saberes interdisciplinares e das capacidades de ação relacionadas às práticas sociais aventadas nas aulas como pedra de toque de uma “revolução plurilíngue” na qual os alunos – mais do que seus professores – percebem-se aprendizes de língua(s), estabelecendo eles mesmos um continuum de uso e de expressão multilinguageiro.

Em suma, utilizando-se de uma abordagem em que a aprendizagem de conteúdos em várias línguas leve o aluno a perceber-se um usuário plurilíngue cada vez mais natural e espontâneo tem sido o melhor caminho para a formação integral de um ser humano bi/multilíngue.