Algumas das sociedades contemporâneas que alcançaram maior nível de desenvolvimento econômico e social têm excelentes exemplos que podem nos inspirar a encontrar alternativas para nossos dilemas locais, como é o caso da Finlândia.

Em se tratando de educação, é interessante ressaltar que a Finlândia, mesmo tendo deixado o topo do ranking do PISA (Programme for International Student Assessment) alcançado no início dos anos 2000 como produto de um modelo educacional e curricular que vigorou com êxito nos anos 80 e 90, não deixou de empreender as reformas que hoje chamam a atenção do mundo por sua pretensão de romper com modelos educacionais do século passado.

Ao idealizarmos a escola do futuro, sé é que ela não deveria estar acontecendo agora mesmo nas nuvens e plataformas que equilibram a educação de uma parcela mais afortunada da sociedade, é razoável considerar que os modelos de produção que sustentaram os séculos passados não mais devem ser reproduzidos em sala de aula. De fato, se a sala de aula que ainda vemos predominar Brasil (e em grande parte das salas de aula mundo afora) privilegia a lógica industrial da repetição e da hiperespecialização, vemo-nos obrigados a lidar com a iminente realidade de que, em 20 anos, cerca de 50% dos empregos existentes na Europa e nos EUA, sustentados por essa dinâmica, correm alto risco de serem substituídos por máquinas. Isso nos leva à obvia conclusão de que as habilidades que consagramos como importantes e até hoje reproduzimos nos mais variados níveis educacionais podem então, simplesmente, não serem mais úteis para os trabalhos que a era tecnológica está criando.

Curioso ressaltar que, os resultados obtidos pela Finlândia do início dos anos 2000 foram alcançados por estudantes que passaram pelas escolas finlandesas entre as décadas de 1980 e 1990, cujo sistema educacional contava com rigorosos sistemas de inspeção e avaliação, feitos por meio de testes em escala nacional. Atualmente, não há testes nacionais para avaliação do sistema educacional. Contudo, isso não significa dizer que a qualidade da educação finlandesa não seja avaliada. “O Conselho Nacional de Educação mantém o papel de ‘avaliador externo’, exigindo a apresentação constante de dados, permitindo avaliar a qualidade educacional no nível da escola, bem como no nível da municipalidade” (Mais detalhes no artigo do professor Tim Oates, diretor de pesquisa e desenvolvimento de avaliação de Cambridge: http://www.cambridgeassessment.org.uk/images/207376-finnish-fairy-stories-tim-oates.pdf).

Nesse documento vemos também que, há um século, o currículo finlandês possuía requisitos especificados de forma centralizada, migrando, nos dias atuais, para um currículo mais generalista e que permite certo grau de autonomia às escolas. Entretanto as práticas educativas devem se dar em um terreno de um consenso social bastante consistente, fruto da construção histórica de uma ordem imaginada de valores sócio-educacionais, cuja concepção especifica que a direção do desenvolvimento social e econômico do país está diretamente ligada ao sucesso do desenvolvimento do capital humano.

Talvez estejamos vivendo um momento especialmente prodigioso no que tange à possibilidade de, de fato, impactarmos as realidades curriculares em nosso país. A BNCC definiu o currículo mínimo que, em que pesem os ruídos que tomam conta das políticas públicas para a educação, muito provavelmente será avaliado pelos testes nacionais em escala.

Podemos, como educadores-protagonistas, escolher dois caminhos: ou aproveitarmos que haverá uma clareza sobre o que será avaliado e iniciarmos uma pequena ousadia na ressignificação da parte diversificada do currículo, propondo sequências curriculares que considerem as novas dinâmicas e valores da sociedade em rede,  ou cairmos na tentação de abarrotarmos nossas salas de aula com mais e mais repetição dos conteúdos curriculares obrigatórios, para ficarmos cada vez mais bem situados nos rankings das avaliações em escala.

Parece não ter sido esse o caminho tomado pela Finlândia. Veja, no gráfico, as médias dos resultados do PISA da Finlândia nas áreas avaliadas pelo Programa, que são Matemática, Ciências e Literatura, entre 2000-2015:

Fonte: https://gregashman.files.wordpress.com/2017/01/finland-pisa1.png

A Finlândia é um país desenvolvido, com uma população pequena e com grande possibilidade de incorporar a tecnologia no dia a dia das cidades. De fato, a explicitação de uma concepção educacional que trata a cidade como o palco da aprendizagem é uma demonstração de que os gestores públicos e a população em geral compreendem o grande impacto que a Internet das Coisas e a Inteligência Artificial, em curtíssimo prazo, trarão às relações sociais e, consequentemente, àquilo que é relevante desenvolver no processo educativo. Estamos na véspera do tempo, que talvez esteja sendo acelerado agora mesmo pelos esforços de conter a emergência sanitária global, em que as cidades se tornarão inteligentes (http://worldif.economist.com/article/12123/horseless-driverless), em que grande parte do trabalho que fazemos hoje será feito por máquinas e, como isso, teremos que nos ocupar de como criar um modelo econômico sustentável e de fazer com que todos desfrutem da prosperidade que está por vir. De algum modo, a Finlândia parece também já estar se ocupando disso, quando experimenta o esquema piloto do basic-income para parte de sua população de desempregados (http://worldif.economist.com/article/13518/giving-money-everyone). Talvez alguns países em desenvolvimento tenham sido arremessados para o rascunho de modelos dessa natureza pela pandemia do novo coronavírus, uma vez que os invisíveis de outrora ganharam alguma coloração, mesmo que forçada.

Pensar na mudança para um sistema educacional abrangente parece indicar que os novos recursos tecnológicos só serão válidos se forem capazes de gerar atitude colaborativa entre os atores envolvidos. Isso pode se concretizar na perspectiva do trabalho multidisciplinar que busca soluções para os desafios contemporâneos, ou no aprendizado em rede e personalizado, por meio de programas inteligentes, capazes de identificar, via algum algoritmo, o modo como cada um aprende melhor e assim propor os caminhos mais eficazes para cada um. Como a Finlândia parece não ter a intenção de abolir os testes para admissão no ensino superior por proficiência, cumprindo o objetivo pragmático ao qual a educação se presta de distinguir aqueles que terão acesso às universidades, a incorporação das novas tecnologias também deixarão suas marcas, como já estão deixando nos ambientes de estudo remoto ao redor do globo.

Essa dimensão do trabalho colaborativo envolve, também o perfil do professor deste tempo, que precisa evoluir para a excelência. Um ponto crucial é a compreensão de que é necessário proporcionar formação para que o professor faça parte da construção desse consenso sobre o processo educacional ideal. O exemplo da Finlândia revela a importância de um plano de reconhecimento financeiro para aqueles que apresentarem bons resultados. Mas, para além disso, o prestígio social do professor finlandês está sustentado em valores bem mais edificantes – e capazes de construir uma ordem imaginária ideal do processo educativo – do que a boa remuneração. “O respeito pelo ensino provém de um conjunto complexo de fatores culturais, incluindo o papel de vanguarda dos professores em resistência à ocupação russa da Finlândia, com professores que se recusam a ensinar a língua russa nas escolas”. (http://www.cambridgeassessment.org.uk/images/207376-finnish-fairy-stories-tim-oates.pdf).

Como a prudência e a contextualização são sempre boas companhias, faz-se necessário um destaque: há especialistas preocupados com a tendência de queda nas medidas de habilidades que consideram centrais, evidenciadas no PISA, em matemática e ciências. A pergunta é: essas habilidades são centrais para qual finalidade? A qual currículo ideal esses especialistas estão se referindo? Seria ao currículo idealizado pela OCDE? Ou seria ao currículo que deverá ser cumprido para que a atual geração de crianças e adolescentes possa desenvolver tecnologias, nos próximos 20 anos, para colonizar o planeta Marte (https://www.youtube.com/watch?v=432_Fwfah0o)? Segundo uma das últimas projeções (apocalípticas) do astrofísico Stephen Hawking, o planeta Terra não oferecerá condições de vida à humanidade nos próximos 100 anos… Cabe a nós nos perguntarmos quais condições temos hoje, neste exato momento.

Talvez o que de melhor o exemplo da Finlândia possa nos mostrar está muito mais associado ao processo de construção de sua reforma educacional, ao modo como compreende as dinâmicas sociais contemporâneas e à capacidade de buscar realidades imaginadas consensuais para que, assim, possamos pensar em alternativas para nossos próprios dilemas educacionais, ainda neste planeta.