A busca por uma metodologia efetiva para formação de bilíngues vem sendo foco de discussão em escolas e em congressos nos últimos anos. As metodologias comunicativas, que certamente significaram um grande avanço nos anos 80 já não dão conta das demandas de comunicação em um planeta cada vez mais multicultural e plurilíngue.

Em um país como o Brasil, no qual as políticas públicas ainda não contemplam legalmente a educação bilíngue, é difícil definir o que é ou não uma escola bilíngue. Por isso trato aqui deste assunto como “formação de bilíngues” e não como ensino de idiomas, programa bilíngue ou educação bilíngue. Todos visam formar bilíngues. E nos tempos atuais, todos os cenários de formação de bilíngues encontraram uma dificuldade em comum: como dar continuidade às práticas pedagógicas em meio à pandemia provocada pela Covid-19.

E como toda situação nova, podemos encarar a pandemia como um problema, ou ver na dificuldade uma oportunidade de desenvolvimento. Por escolha ou por falta de escolha, a maioria das escolas partiu para a segunda opção, até porque ela é a única forma de sobrevivência das mesmas durante a situação de impedimento de aulas presenciais.

O importante é não interromper o processo educacional e procurar, gradativamente, encontrar caminhos para tornar as aulas e as aprendizagens possíveis e interessantes para os estudantes. Menciono aqui três estratégias que venho adotando com as escolas às quais assessoro:

1. Planejamento essencial e planejamento ampliado

Muitas famílias reclamam que os conteúdos que estão sendo enviados para os estudantes são insuficientes, que as crianças fazem “tudo” muito rapidamente e não têm o que fazer no restante do dia. Outras famílias reclamam exatamente do oposto: o conteúdo enviado pela escola é excessivo e os pais não conseguem acompanhar as crianças em suas tarefas porque também estão em casa, trabalhando.

O que tenho proposto para as escolas que eu assessoro é uma divisão do planejamento em duas partes : as atividades essenciais e as atividades ampliadas. As famílias que não quiserem fazer todas as atividades enviadas pela escola podem se limitar a cumprir com as crianças as atividades essenciais. Aquelas que considerarem pouco, podem desenvolver com seus filhos também as atividades ampliadas.

Este procedimento tem acalmado as famílias, e temos deixado claro que o que chamamos de essencial é suficiente para garantir as aprendizagens esperadas. As atividades do planejamento ampliado geralmente incluem outros jogos, músicas, vídeos, e propostas de atividades relacionadas às essenciais, mas não apresentam nenhum conteúdo novo.

2. O planejamento das videoaulas

Desde o início da pandemia, minha maior preocupação era o desinteresse das crianças, especialmente as bem pequenas, pelos vídeos gravados pelos professores. Após muitas reuniões, pesquisas e discussões até mesmo com colegas professores do exterior, encontramos alguns caminhos que têm ajudado a tornar as aulas mais interessantes.

O elemento mais importante que temos adotado é a imprevisibilidade. As aulas seguem, sempre que possível, dinâmicas diferentes. Isso evita que o estudante já saiba o que vai acontecer depois. A curiosidade os mantém mais atentos às aulas.

Principalmente quando falamos em crianças da educação infantil, tanto nas aulas síncronas (em tempo real), quanto nas assíncronas (aulas gravadas), temos tido o cuidado de promover interrupções no tempo de tela e incluir atividades que incentivem o movimento. Por exemplo, o professor apresenta um conteúdo e, em seguida, pede que as crianças se levantem e procurem em suas casas um determinado objeto (em formato de círculo, ou de uma determinada cor, ou que tenha qualquer característica que esteja sendo trabalhada na aula. O professor avisa que as crianças terão dois minutos para voltarem à tela para apresentar o que encontraram. Criam códigos com as crianças, como o tocar de um sino ou campainha, que será o sinal de que devem voltar para a tela. Podem trazer o objeto, ou apenas falar sobre ele.

Apenas o fato de tirar as crianças da tela por dois minutos já faz com que elas se movimentem, renovem a energia e o tempo de concentração, e se apresentem novamente para mais alguns minutos de atividade na tela, com o professor.

Outra característica das aulas que tenho recomendado aos professores é o conceito de “episódio”. Especialmente na educação infantil. As aulas nunca terminam com um simples “bye-bye”. Elas sempre terminam com um elemento que desperte a curiosidade das crianças: mostrar a “caixa mágica” usada para contar histórias e perguntar misteriosamente o que será que há na caixa. Ou terminar com uma pergunta curiosa para as crianças discutirem com a família (mesmo que seja em português) e trazerem a resposta na aula seguinte. A ideia de um episódio é o que mantém as crianças interessadas nos desenhos animados e nas séries infantis que assistem na TV ou no computador. Por que não nas aulas? Se as aulas terminarem sempre com “homework”, que interesse provocarão nas crianças?

Outra estratégia de planejamento que tem sido um sucesso é a participação de “convidados especiais”. Os professores organizam isso entre eles mesmos. Convidam um colega que tem alguma ligação com as crianças: professor do ano anterior, professor da sala vizinha, especialista de alguma disciplina, etc. As crianças ficam muito interessadas pelas visitas. O professor combina o que o visitante fará na aula. Geralmente, é entrevistado pelo professor ou pelas crianças sobre algo relativo ao tema da aula. Fica presente poucos minutos, despede-se da turma e sai da aula. Isso tem sido muito motivador para as crianças.

3. Orientação para as famílias

A parceria com as famílias tem se tornado essencial para que a educação possa continuar acontecendo enquanto não temos possibilidade de voltar às aulas presenciais. Mas as famílias precisam de orientação sobre o que fazer, como fazer e, na minha opinião, o mais importante: por que fazer.

Quando pedimos que a família faça com as crianças uma atividade de coordenação motora fina, por exemplo, uma atividade de pinça, de alinhavo. Ou um circuito para uma atividade de movimento, usando os móveis e recursos da própria casa, muitas famílias ficam desesperadas ou até mesmo revoltadas contra a escola. Mas isso ocorre principalmente porque elas não entendem os pressupostos pedagógicos que fundamentam a escolha da atividade proposta. É necessário explicar o motivo pelo qual as atividades foram enviadas. É preciso desconstruir a ideia de que as crianças vão para a escola apenas para brincar na educação infantil. Cabe a nós, educadores, enviar informações para as famílias, explicando que aquela atividade de pinça, por exemplo, vai impactar no processo de escrita alguns anos depois. Que a atividade de circuito de movimento faz parte do campo Corpo, Gesto e Movimento da BNCC, e porque ela é fundamental na educação infantil.

Sugiro às escolas que disponibilizem vídeos para as famílias explicando os processos pedagógicos. Que, se possível, promovam lives para a famílias com profissionais que as possam ajudar nesse período. O bem-estar de todos está abalado pelas incertezas e medos dos tempos atuais. Precisamos cuidar das famílias, assim como cuidamos das crianças.

As experiências que estamos vivendo transformarão a educação. E não será diferente com a formação de bilíngues. A mistura entre aulas presenciais e aulas remotas é uma das chaves que venho defendendo há muito tempo, para que possamos ampliar o tempo de contato dos estudantes com o idioma. E as tecnologias são essenciais para que isso ocorra. Em algumas escolas, já trabalho há alguns anos com esses modelos híbridos, utilizando aulas remotas para ampliar o tempo de exposição à segunda língua de instrução, especialmente em situações nas quais o tempo presencial para esta outra língua é muito limitado.

Certamente, transformar as dificuldades do hoje em oportunidades de desenvolvimento, vai nos tornar mais aptos a enfrentar os desafios do retorno à escola presencial. E vai impactar os processos educacionais no futuro próximo. Por isso, é essencial que nos dediquemos agora a conhecer recursos e a pensar em como agiremos para sair e ao sair da crise. Porque ela vai passar!