Enquanto nos tornamos cada vez mais imersos no mundo das tecnologias, mais cresce o número de denúncias sobre o mau uso dos recursos digitais pelas pessoas de todas as idades. Ferramentas poderosas e rápidas na disseminação da informação, um erro leva segundos para se propagar por um número imenso de pessoas e torna-se, em muitos casos, irreversível.

Preocupa-me o fato de que tão pouco seja feito na maioria das escolas em prol do desenvolvimento de cidadania digital. Antes de trabalharmos conteúdos, quaisquer que sejam, parece fazer mais sentido discutir e desenvolver os múltiplos aspectos inerentes à cidadania digital desde a educação infantil e ao longo de toda a educação básica.

Como professores, é importante estarmos cientes de que nossos estudantes atualmente não conhecem o mundo sem a imersão digital. Isso vale tanto para aqueles conhecidos como Geração Z, nascidos entre 1995 e 2010, que hoje estão em nosso Ensino Fundamental – Anos Finais, quanto para os Alphas, que nasceram após 2010 e que hoje são nossos estudantes de educação infantil e Ensino Fundamental- Anos Iniciais.
Segundo Ribble (2017), cidadania digital refere-se às normas de uso apropriado e responsável das tecnologias. Mas o uso apropriado e responsável das tecnologias é algo a ser aprendido pelos estudantes. E para ajuda-los neste processo de aprendizagem, é preciso refletir sobre nossas próprias práticas como adultos atuantes nas mídias digitais.
Em 1992, o Computer Ethics Institute criou um documento propondo dez mandamentos para a ética no uso de computadores. A ética pode ser o ponto de partida para uma boa discussão sobre responsabilidade no uso das tecnologias. Segundo Gardner , podemos entender ética como um conceito que engloba cinco temas principais: identidade, privacidade, autoria e propriedade, credibilidade e participação. Todos esses temas são essenciais para uma educação que almeja formar cidadãos aptos a interagir no mundo digital com responsabilidade e integridade.
Além da relação entre ética e cidadania digital, é preciso trazer para o currículo discussão sobre a criação de normas para um comportamento responsável no mundo digital. Ribble(2015; 2017) propõe uma possível matriz para discussões sobre cidadania digital em espaços escolares. Segundo o autor, a proposta pedagógica deve partir de três princípios organizadores: o respeito, a educação e a proteção. Cada um dos princípios engloba temas essenciais para a formação das crianças e adolescentes:

O princípio do respeito

Cabem aqui discussões importantes sobre três temas: acesso digital, etiqueta e lei digital.
O princípio do respeito digital pressupões acesso digital a toda a população. Faz parte, portanto da cidadania digital defender direitos iguais de acesso às tecnologias e à internet, para que haja acesso às informações e oportunidades no mundo digital. Também faz parte do princípio do respeito digital garantir a convivência dentro de um código de etiqueta que garanta a boa qualidade das interações no mundo digital. O mesmo princípio contempla ainda a necessidade de discutirmos com nossos estudantes as interações digitais no viés das leis que visam garantir a ética na tecnologia. “Os usuários precisam entender que roubar ou causar dano ao trabalho de outras pessoas, à identidade delas ou às suas propriedades no mundo online é um crime.” (Ribble, 2017:7).

O princípio da educação

Aqui é preciso discutir três outros temas: a comunicação digital, o letramento digital e o comércio digital.
É preciso que os estudantes conheçam os meios de comunicação digital de forma mais ampla, como o uso de telefones celulares e outros dispositivos para mensagens e acesso às redes sociais, mas também finalidades acadêmicas e profissionais, como participação em videoconferências, acesso a fontes de pesquisas, acervos de informação, mensagens por e-mails e demais gêneros digitais.
O letramento digital é também essencial dentro do princípio da educação e contempla a aprendizagem técnica de acesso às ferramentas digitais, aos dispositivos fixos ou móveis, à internet, softwares, aplicativos, etc.
Cabe neste princípio ainda aprender a lidar com o comércio digital e compreender que é possível comprar e vender qualquer coisas pela internet. Porém, no caso da compra, é necessário pesquisar, escolher formas seguras de pagamento e proteger dados pessoais, por exemplo. E, no caso de venda, cuidar da clareza do anúncio, da ética, da segurança do procedimento de cobrança, da lealdade para com o consumidor, etc.

O princípio da proteção

Os estudantes precisam analisar os riscos da exposição à internet. Diariamente, a tecnologia nos coloca em situações nas quais compartilhamos informações pessoais, arquivamos documentos importantes em nuvem, compartilhamos fotos, acessamos bancos, fazemos compras, arquivamos informações pessoais e profissionais. Por estes motivos, o princípio da proteção pressupõe discussões que devem contemplar temas relativos aos direitos e responsabilidades digitais, segurança digital e, por fim, saúde e bem-estar no mundo digital.
Vamos começar pelos direitos e responsabilidades. Todo usuário tem o direito de acesso a toda a informação que está disponível e pode ser acessada por meio da tecnologia, como músicas, vídeos, artigos, etc. Porém, a informação está lá porque alguém a disponibilizou. Chamar a atenção dos estudantes para a responsabilidade sobre aquilo que disponibilizamos e/ou compartilhamos é essencial.
Outro tema que precisa ser abordado dentro do princípio da proteção é a segurança digital. O tema envolve desde cyberbullying, proteção contra vírus nos dispositivos, o perigo dos hackers, etc. A National Alliance for Cyber Security traz propostas interessantes de temas e regras de proteção para serem discutidas com os estudantes em relação à segurança digital.

Por fim, temas referentes à saúde e bem-estar no mundo digital são essenciais dentro do princípio da proteção. Pesquisas apontam o fato de que a tecnologia digital pode afetar a saúde física, psicológica e o bem-estar geral das pessoas. E o problema não se limita ao cyberbullying, que já é extremamente grave. Algumas pesquisas apontam, por exemplo, que o excesso de horas na tela pode prejudicar o rendimento escolar , como apontam os estudos da professora Jennifer F. Cross, que afirma que, embora os dados não sejam conclusivos, é possível que as telas inibam alguns aspectos do desenvolvimento infantil, uma vez que estreitam o foco de interesse e limitam outros caminhos para a exploração e para a aprendizagem. As pesquisas parecem ser unânimes em relação ao fato de que o tempo de tela deve ser limitado. O professor Michael Rich, diretor do Centro de pesquisas sobre Mídia e saúde na infância do Hospital Infantil de Boston afirma que as crianças precisam de um menu mais diversificado de experiências, e que este não pode ser proporcionado apenas pelas experiências online. Dificuldades com o sono, escola, funcionamento social, além de diversos aspectos da saúde física e mental vem sendo diagnosticados como resultantes de excesso de atividades online, tanto em crianças e adolescentes, quanto em adultos.

Se considerarmos que, mais do que nunca, as tecnologias se tornam imprescindíveis na vida das pessoas, refletir sobre cidadania digital desde a educação infantil torna-se assunto prioritário nos currículos. Um bom cidadão digital desenvolve letramentos que lhe permitam circular pelos discursos virtuais com mais propriedade, responsabilidade e capacidade de escolha.
Quando lá na Educação Infantil as crianças aprenderem a cuidar dos equipamentos porque são frágeis, a compartilhar esses equipamentos com os colegas da turma, a esperar sua vez, a pedir para fotografar alguém e perguntar ao fotografado se a foto pode ser postada, já teremos dado início ao processo reflexões que levarão as crianças a atitudes éticas e cidadãs no mundo digital.