Para entender as dificuldades que enfrentamos ao ensinar línguas no Brasil de hoje, é necessário revisitar a história das políticas linguísticas no nosso país. Afinal, um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la…

Bem, a primeira tentativa de imposição da língua portuguesa no Brasil data do ano de 1759.  Naquela ocasião, o Marquês de Pombal proibiu o uso de outras línguas que não o português, em todas as colônias portuguesas.

Alguns anos depois, foram instituídas aulas de latim e de grego nas escolas jesuíticas do Brasil. Também havia aulas de leitura e escrita do português, e de aritmética, retórica e filosofia.

No século XIX, a influência da Revolução Industrial iniciada na Europa chegou ao Brasil: enquanto o ensino do latim e do grego era baseado na gramática e na tradução, as línguas vernáculas passaram a ser ensinadas de forma a preparar para a comunicação cotidiana, em situações cada vez mais comuns.

Na mesma época, começaram os grandes fluxos de imigração para o Brasil. Alemães em 1824, italianos em 1870, japoneses em 1908… de um lado, a fundação de comunidades de fala, de escolas e de trocas linguísticas.

De outro lado, as violentas proibições de que essas pessoas se expressassem em línguas que não o português: primeiro, por meio da proibição do ensino dessas línguas nas escolas públicas, pela Constituição de 1934. Depois, com as severas punições estabelecidas na ditadura de Getúlio Vargas.

A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) data de 1961, quando o inglês já tinha adquirido sólida popularidade no Brasil e no mundo. Mas essa lei, ao invés de fomentar seu oferecimento nas escolas e ampliar a oferta de outras línguas, retirou a obrigatoriedade do ensino de línguas no Ensino Médio! Essa obrigatoriedade só voltaria em 1976.

A consequência, é lógico, foi a expansão dos cursos de idiomas privados – e da perigosa ideia de que na escola não se aprende inglês de verdade. Outra ideia firmemente presente nas mentes brasileiras até hoje, certo?

Em 1996, uma nova LDB estendeu essa obrigatoriedade ao Ensino Fundamental II, acrescentando ainda outra língua estrangeira no Ensino Médio, de forma optativa. Em 2005, a chamada “lei do espanhol” tornou a oferta da língua espanhola facultativa a partir da antiga quinta série do Ensino Fundamental e obrigatória no Ensino Médio, de matrícula facultativa pelos alunos.

Em 2017, a lei 13.415 revogou a lei do espanhol! A oferta obrigatória do espanhol no Ensino Médio foi transformada na oferta obrigatória “de outras línguas, preferencialmente o espanhol”, mas de matrícula optativa.

A mesma lei também estabeleceu o inglês como língua obrigatória a ser ofertada no Ensino Fundamental a partir do sexto ano, antiga quinta série, e no Ensino Médio – em mais um movimento de padronização linguística…

Em resumo, se os esforços no sentido de impor o monolinguismo tiveram início com a chegada dos portugueses, esses esforços não tiveram um fim até hoje: de um lado, línguas faladas pela população eram reprimidas, e de outro lado, as línguas de prestígio se tornavam acessíveis apenas a quem pudesse custear cursos privados.

Assim, a História nos prova que a língua é um instrumento de poder.

Por isso, aprender línguas no Brasil é um ato revolucionário!