Muito se fala de aulas online, blended learning ou aprendizagem híbrida em tempos de pandemia. Ainda vivemos um atraso inacreditável em relação ao conhecimento do que é possível – e o que não se deve fazer – em uma aula online, à distância. A chave para uma utilização ótima do ensino à distância é conseguirmos pensar sob a ótica do digital. É o chamado mindset digital.

A dimensão digital oferece oportunidades diferentes dentro de um ecossistema de ensino-aprendizagem, bem como limitações diferentes. Há muitos estudos sobre os impactos do digital nas pessoas, mas uma fonte muito rica de conhecimento acerca desses impactos é exatamente a observação da relação dos nativos digitais com essas tecnologias. Os nativos digitais são aqueles que já nasceram sob a influência do digital em suas vidas. São as gerações que já nasceram conectadas, que desde os primeiros meses já foram expostas a algum aparelho como tablet ou celular, e que convivem com o digital onipresente em suas vidas. As gerações Z e Alfa, que hoje são os alunos em idade escolar, fazem parte desse grupo. Isso significa que nós, os chamados imigrantes digitais, estamos em uma dimensão diferente da dos alunos e por isso precisamos estudar e entender o modelo mental deles e as interações feitas entre eles e as ferramentas digitais.

O mindset digital nos possibilita entender essa interação entre o aluno e o digital para que possamos extrair o máximo de suas potencialidades e evitar usá-lo de forma ineficiente. Por exemplo: sabemos que os tempos no digital e no presencial são outros. Não é nada eficiente fazer os alunos passarem o mesmo tempo que passariam em uma aula presencial fazendo uma aula online em tempo real. Isso porque o tempo médio de atenção em frente a uma tela diminui consideravelmente em relação ao tempo em uma sala de aula. Sendo assim, a combinação de várias atividades mais curtas e muitas delas assíncronas (não-simultâneas) será muito mais eficiente do que um longo período online de uma aula “analógica” – exatamente como seria presencialmente.

Há vários modelos propostos por estudiosos em tecnologias aplicadas à educação mas o que eu considero mais simples e prático é o SAMR Model, proposto por Ruben Puentedura:

O SAMR Model de Puentedura

Nesse modelo, há 4 níveis de utilização de tecnologias digitais na educação: S – Substitution, A – Augmentation, M – Modification e R – Redefinition. Os dois primeiros níveis são insuficientes para realizar a verdadeira transformação do mindset analógico para o digital. O segredo é conseguir planejar unidades didáticas ou mesmo atividades nos níveis M e R – que só são factíveis graças às tecnologias digitais, pois essas são as que evidenciam um pensamento digital por parte do professor.

Construir um mindset diferente exige um esforço, não é um movimento natural, mas é sempre quando nos desenvolvemos. Quando o homem caçador-coletor se viu em meio a uma escassez de recursos e descobriu que poderia plantar e criar animais, houve uma revolução na humanidade. Façamos essa pequena revolução em nossas práticas de ensino desenvolvendo nosso mindset digital. Porque afinal de contas estamos no século do digital!