Qual a relação entre educação bilíngue e multiculturalismo? Há diferenças entre multiculturalismo e interculturalidade? Toda escola bilíngue promove uma educação multi/intercultural? Neste texto, discuto essas questões e me proponho a refletir, ainda que muito sucintamente, sobre as bases para uma educação bilíngue que tenha como propósito o desenvolvimento da sensibilidade intercultural de seus estudantes. Para tanto, me aterei, inicialmente, ao conceito de multiculturalismo.

Assim como o conceito de globalização, a noção de multiculturalismo faz-se presente nas atuais discussões que envolvem a geopolítica mundial. Moreira e Candau (2008, p.7) explicam que, de acordo com Kincheloe e Steinberg (1997), “multiculturalismo pode significar tudo e, ao mesmo tempo, nada”. Desse modo, os autores defendem a necessidade de especificação de seus sentidos e explicam que, de modo geral, esse conceito “costuma referir-se às intensas mudanças demográficas e culturais que têm ‘conturbado’ as sociedades contemporâneas” (MOREIRA; CANDAU, 2008, p.7).

Candau (2008) discorre, especificamente, acerca da questão multicultural no Brasil e salienta que o país foi construído a partir de relações interétnicas, na maioria das vezes, dolorosas, como no que se refere aos grupos indígenas e afrodescendentes. A autora argumenta que: 

[…] nossa formação histórica está marcada pela eliminação física do ‘outro’ ou por sua escravização, que também é uma forma violenta de negação de sua alteridade. Os processos de negação do ‘outro’ também se dão no plano das representações e no imaginário social. (CANDAU, 2008, p.17).

A autora aponta que a polissemia do termo multiculturalismo pode ser considerada uma dificuldade quando se tenta aprofundar nessa discussão. Candau (2008) distingue duas abordagens para tratar as questões suscitadas hoje pelo multiculturalismo: uma descritiva e outra propositiva. De acordo com a autora (2008, p.19), a primeira afirma “ser o multiculturalismo uma característica das cidades atuais”. Nessa concepção, o que se enfatiza é a descrição da condição multicultural de cada contexto. A abordagem propositiva, por sua vez, entende que o multiculturalismo deve ser visto não apenas como “um dado da realidade, mas como uma maneira de atuar, de intervir, de transformar a dinâmica social” (CANDAU, 2008, p.20).

Candau (2008) explica que, da perspectiva propositiva, é possível distinguir três abordagens: o multiculturalismo assimilacionista, o multiculturalismo diferencialista, ou monoculturalismo plural e o multiculturalismo interativo, também, conhecido como interculturalidade.

A primeira abordagem, a assimilacionista, defende a ideia de que todos podem ser integrados à sociedade e incorporados à cultura hegemônica. Desse modo, segundo Candau (2008), a cultura hegemônica permanece intocável, não é questionada. Em nome dessa cultura dominante, “saberes, línguas, crenças, valores ‘diferentes’, pertencentes aos grupos subordinados […]”, são deslegitimados e “considerados inferiores, explícita ou implicitamente” (CANDAU, 2008, p.21).

O multiculturalismo diferencialista, a segunda abordagem que a autora ressalta, coloca ênfase no reconhecimento das diferenças e apregoa que é necessário garantir espaços próprios e específicos para a expressão das diferentes identidades culturais presentes em determinado contexto. Ainda que aparentemente louvável, essa abordagem, no entanto, está calcada em uma visão estática e essencialista de cultura, o que faz com que, como enfatiza Candau (2008, p.22), ela termine “por favorecer a criação de verdadeiros apartheid socioculturais”.

A terceira abordagem sobre a qual a autora discorre é a interculturalidade ou multiculturalismo interativo. De acordo com a Candau (2008), o conceito de interculturalidade é permeado pelas seguintes características:

(I) rompe com uma visão essencialista das culturas e as concebe “em contínuo processo de elaboração, de construção e reconstrução” (CANDAU, 2008, p.22); 

(II) entende as relações sociais como construídas na história e, desse modo, permeadas por questões relativas ao poder e hierarquizadas e, assim, marcadas pela discriminação e por deslegitimar certos grupos. 

(III) reconhece os processos intensos e mobilizadores de hibridização cultural; 

(IV) não se desvincula das questões da “diferença e da desigualdade presentes hoje de modo particularmente conflitivo, tanto no plano mundial quanto em cada sociedade”. Além de considerar essa relação complexa, admite “diferentes configurações em cada realidade, sem reduzir um polo ao outro” (CANDAU, 2008, p.23).

Para o aprofundamento da noção de interculturalidade, recorro a Maher (2007, p.13), que argumenta a favor do “exame permanente e crítico” das causas das diferenças entre culturas imbricadas no conceito. De acordo com a autora (2007, p.12), a interculturalidade “propõe a instauração do diálogo entre as culturas: é aí, nesse diálogo, que o poder pode ser negociado, pode ser desestabilizado e que relações mais equânimes podem ser construídas”. 

Nesse sentido, é preciso sempre que examinemos com profundidade qual tipo de multiculturalismo está sendo proposto e promovido pela escola. Além disso,  precisamos nos atentarmos ao fato de que a coexistência de duas línguas de instrução ou mesmo de estudantes de várias nacionalidades não garantem uma educação bilíngue intercultural. É necessário, como propõe Maher (2007), que diferentes perspectivas culturais sejam examinadas com o objetivo de compreender como as diferenças/similaridades entre elas foram historicamente construídas. É preciso, principalmente e acima de tudo, promover uma educação comprometida em olhar para o Outro com o objetivo de compreender mais amplamente nosso papel social e como nossa sociedade foi/é estruturada a fim de desafiarmos processos e certezas já naturalizados e enraizados. 

Referências

CANDAU, V. M. Multiculturalismo e educação: desafios para a prática pedagógica. In: MOREIRA, A. F.; CANDAU, V.M. (Orgs.). Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 13-37.

MAHER, T. M. A Educação do Entorno para a Interculturalidade e o Plurilinguismo. In: KLEIMAN, A. B.; CAVALCANTI, M. C. (Orgs.). Linguística Aplicada – suas Faces e Interfaces. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2007. p.255-270.

MOREIRA, A. F.; CANDAU, V.M. Introdução. In: MOREIRA, A. F.; CANDAU, V.M. (Orgs). Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 9-11.