De acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu, as aprendizagens que herdamos através do convívio familiar e do repertório social que compartilhamos do meio no qual estamos inseridos determinam nosso capital cultural.

O modo de aquisição da linguagem é um exemplo primário de como o capital cultural diferencia os sujeitos sociais, e é capaz de determinar que o idioma “francês nativo” se distingue do “francês dos imigrantes”, conferindo posições sociais de diferentes valores aos usuários de cada modulação da linguagem. Em sua teoria, ele diz que a escola valoriza uma linguagem semelhante àquela que codifica seus saberes, acadêmicos e tácitos, e, nesse caso, o imigrante tenderia a ser reprovado pelos modelos educativos tradicionais, pois, além de não possuir o capital cultural linguístico nativo que lhe daria semelhança, outros códigos culturais valorizados no campo das relações sociais também lhes escapariam ao domínio, colocando-o ainda mais distante do centro da cena de compartilhamento do saber escolar tradicional.

Nesse contexto em que o capital cultural escolar predominante busca encontrar similaridades no capital cultural do estudante para a garantia do status quo, os paradigmas tecnológicos do século XXI rompem com essa força motriz da reprodução social, e os novos sujeitos, nativos de uma nova linguagem e de um novo código de participação social, independentemente de sua origem, tornam-se imigrantes digitais que invadem as fronteiras que cercam o território das carteiras enfileiradas.

Ainda de acordo com Bourdieu, se o [idioma] francês fosse bem falado por todos, nativos e imigrantes, isso deixaria de distinguir os sujeitos. Logo, perderia o status no campo do capital cultural. Do mesmo modo, se o acesso restrito à informação e a decisão de compartilhamento que distinguiam o educador e a escola tradicional são, agora, de alguma forma, acessíveis e democráticos, o que sustentava o modelo escolar do século passado não é mais codificado como recurso raro do capital cultural.

As possibilidades e as inovações que a tecnologia da Era Cognitiva introduz na cena social, a cada segundo, nos impele a viver dilemas que dificilmente foram pensados, em escala, fora da ficção científica. É improvável que, em um passado recente, as aulas das disciplinas de Ciências Humanas se ocupassem em discutir a possibilidade de que sejam usados ‘robôs soldado’ em regiões de conflitos militares. Tampouco que a Inteligência Artificial e a Internet das Coisas pudessem dar recursos como esse para que grupos extremistas elevem os ataques terroristas a outro patamar. E que, em uma aula de Física, os alunos se ocupassem de calcular quantos kwh um cidadão da Flórida deveria solicitar de aumento da autonomia da bateria de seu carro elétrico, em uma atualização remota, para que escapasse do furacão Irma.

Teríamos, aqui, uma inspiração sociológica para compreendermos a aflição das instituições educacionais que se deparam com a necessidade de se adaptar aos imperativos desse novo tempo, mas que fracassam ao negligenciarem que não possuem o capital cultural necessário para dialogar com a nova linguagem nativa, que comunica intensa e colaborativamente, em massa, que produz novas configurações mentais. Com a nova linguagem nativa, a escola tradicional tende a tornar-se imigrante em uma sociedade que não mais a reconhecerá. E com a abrupta digitalização de suas paredes e carteiras, forçada pela crise sanitária global, hoje a escola já está imigrante de si mesma. Espero que, como tal, para além de reconhecer as dificuldades de sua condição, saiba buscar nas adversidades as bases de um futuro melhor.