Vivemos tempos inimagináveis. Tempos de paradoxos, de incoerências, de incongruências, de anacronismos assustadores, surreais. A pós-verdade, neologismo utilizado pela primeira vez pelo dramaturgo Steve Tesich na revista The Nation, consiste em utilizar-se do apelo às emoções e às crenças e valores de determinados grupos para relativizar e até marginalizar os fatos a favor de uma pseudoverdade.

É difícil identificar as raízes de tal fenômeno, mas é possível identificar catalisadores do mesmo, bem como suas consequências – todas nefastas. A Era da Informação, onde o acesso aos fatos e suas versões é praticamente universal, traz curiosamente um conjunto de condições que favorecem e muito a pós-verdade – e com ela a própria desinformação. Novas tecnologias de edição de imagens e sintetização de áudios e vozes fazem o trabalho, para aqueles que querem se valer da pós-verdade para desinformar, muito mais fácil. As redes sociais, onde fatos, opiniões, verdades e mentiras circulam instantaneamente para milhões de pessoas, misturam-se e dificultam para o usuário comum discernir o que é fato do que é fake.

O resultado é um mundo onde, em pleno século XXI, pessoas ainda não acreditam que o homem realmente foi à lua. Mais: que acreditam que a Terra é plana! Teorias conspiratórias fazem com que as pessoas tenham medo e não queiram mais tomar vacinas, trazendo de volta enfermidades que já haviam sido praticamente erradicadas do planeta. O ceticismo para com a Ciência beira o medievalismo. Isso se torna ainda mais dramático quando os grupos políticos no poder de algumas nações chegaram lá apoiados por essas pessoas, e muitas vezes tendo as mesmas crenças deles.

Mas minha intenção aqui não é discorrer sobre a pós-verdade, e sim pensar em como a escola pode combatê-la.

Penso que a nova escola precisa ter como um de seus pilares o combate à pós-verdade. O resgate da valorização da e da crença na Ciência é condição fundamental para o progresso da humanidade. Sem a crença na Ciência voltamos a um obscurantismo e misticismo incompatíveis com a caminhada do Homo Sapiens na Terra.

Para isso, a escola precisa desenvolver currículos onde haja a abordagem e o desenvolvimento de competências e habilidades que permitam que os alunos possam evitar cair na armadilha da pós-verdade. Pensamento crítico, lógica, busca de evidências científicas para o embasamento de ideias (pensamento científico), bem como ferramentas para que os alunos consigam, em um mundo cada vez mais nebuloso, discernir o fato do boato, a verdade da ficção, o real da invenção.

Dentro da própria estrutura de conteúdos existente hoje é possível desenvolver essas competências e habilidades porque elas estão num eixo de transversalidade em relação aos conteúdos das disciplinas. Pode-se trabalhar os conteúdos da BNCC com abordagens que permitam aos alunos vivenciarem situações em que serão expostos a essa problemática. Discussões e debates sobre essas situações os farão refletir criticamente. E um mindset mais científico, onde qualquer afirmação feita precisa estar embasada em fatos, os fará entender a diferença entre o verdadeiro e o falso, e a importância da defesa da verdade.

Como disse o filósofo grego Epicteto, só a educação liberta. Mas para libertar, hoje em dia, é fundamental que a escola instrumentalize seus alunos para que não sejam presas fáceis do medievalismo da pós-verdade. Ou tempos ainda mais sombrios virão.