Em uma escola bilíngue, o desenvolvimento da língua deve ser objeto de trabalho de todo professor, seja na língua de nascimento dos alunos ou na língua adicional, independentemente da disciplina ou área que lecione.

O professor que trabalha com língua adicional, ao qual este texto se destina, deve considerar quais são os recursos linguísticos disponíveis entre seus alunos e quais devem ser construídos em um período determinado, que pode ser aquele ano específico ou durante determinada sequência ou unidade didática. É necessária também a compreensão de que, em uma abordagem que integra ¬conteúdo e língua, o desenvolvimento da língua não ocorre de maneira linear (como acontece, por exemplo, em um curso da língua-alvo), ou seja, os alunos não depararão com o tempo verbal presente obrigatoriamente antes do passado.

Ao início de qualquer unidade didática, o professor deve identificar os elementos linguísticos necessários para o trabalho com o conteúdo que será abordado. Para tanto, é preciso fazer uma análise sistemática desse conteúdo na fase do planejamento das aulas. É importante salientar que, de acordo com Coyle, Hood e Marsh (2010), essa análise vai muito além da identificação de palavras-chave e outras funções gramaticais que perpassam o conteúdo que será abordado – ela deve captar os elementos discursivos envolvidos no trabalho com o conteúdo. Os autores salientam que isso requer uma análise dos gêneros associados ao conteúdo que será desenvolvido.

Após esse levantamento da linguagem compatível com o conteúdo, o professor deve planejar em suas aulas o input ao qual os alunos serão expostos e o output que será proporcionado durante as aulas. VanPatten e Cadierno (1993) explicam que o input é definido como a língua(gem) que o aprendiz ouve e lê na busca de significado, sendo que uma informação somente pode ser considerada input se for compreensível pelo aprendiz.

É necessário, portanto, que o professor utilize recursos adequados (textos, vídeos, músicas e seu próprio discurso) para que o aluno se depare com um input ótimo, ou seja, variado e repleto dos elementos discursivos e linguísticos de que precisa para manipular determinado conteúdo.

No entanto, não basta apenas fornecer um input ótimo. Esse input deve ser convertido em intake. De acordo com VanPatten (1990), o intake corresponde à porção de input que o aprendiz processa na memória. Fighera (2011) explica que nem todo input é convertido em intake. Faz parte, então, do papel do professor planejar meios para que haja a conversão.

Finalmente, após planejar o input que será utilizado e os recursos pedagógicos para que o intake ocorra, o professor deve planejar a oferta de output em suas aulas. De acordo com VanPatten e Cadierno (1993), o output consiste naquilo que o aprendiz produzirá. Swain (1995) explica que o output desempenha quatro funções: (i) prática da língua (fluência e automaticidade); (ii) promoção do registro cognitivo (gatilho); (iii) testagem de hipóteses a respeito das estruturas e significados; e (iv) promoção da reflexão sobre a língua (função metalinguística).

A primeira função do output, a prática da língua, refere-se à oportunidade que o aprendiz tem de praticar seus recursos linguísticos, o que permitirá que atinja gradativamente a automaticidade do seu uso.

A segunda função, promoção do registro cognitivo, é relativa ao fato de que, ao produzir em língua adicional, os aprendizes podem perceber uma lacuna entre o que querem dizer e o que sabem dizer. Isso faz com que reconheçam o que não sabem ou o que sabem apenas parcialmente. Desse modo, é possível acionar processos cognitivos capazes de gerar um novo conhecimento linguístico ou consolidar um conhecimento já existente (SWAIN; LAPKIN, 1995; SWAIN, 1995).

A terceira função do output, testagem de hipóteses a respeito das estruturas e significados, consiste em experimentar novas formas e estruturas, adicionando e reestruturando seu conhecimento linguístico para se comunicar.

Por fim, a quarta função do output, a promoção da reflexão sobre a língua, ocorre quando os aprendizes a utilizam para refletir acerca de sua produção ou a dos outros.

O trabalho integrado com língua e conteúdo é um dos focos da Educação Bilíngue. Dessa forma, todos os professores, que lecionam nas mais diversas áreas, devem se atentar ao fato de que são também responsáveis pelo desenvolvimento de língua(gem) compatível ao conteúdo que trabalham com os alunos.