O objetivo central da pedagogia dos multiletramentos é o trabalho com/a partir da diversidade cultural e da diversidade de linguagens na escola. Essa concepção faz referência tanto à multiplicidade cultural – o multiculturalismo, quanto à semiótica de constituição dos textos – a multimodalidade (ROJO, 2012).

Mas por que precisamos abordar essa diversidade na escola? Primeiro porque a escola precisa se relacionar com o mundo e o trabalho com novos letramentos que emergem na sociedade contemporânea, principalmente devido ao advento da tecnologia, é fundamental para formarmos estudantes aptos a exercerem seus direitos e deveres no mundo atual. Além disso, em um mundo marcado pela intolerância, a inclusão de variadas culturas, perspectivas, discursos e narrativas é fundamental para a produção de sujeitos críticos e apreciadores da diferença.

Desde o início de seu concebimento, em 1996, a preocupação do grupo de Nova Londres, responsável pelo concepção do conceito, era em como oferecer uma educação adequada para a diversidade: mulheres, indígenas, migrantes, falantes de outras línguas e de variedades sem prestígio.

A escolha do termo multiletramentos foi motivada, de acordo com Cope e Kalantzis (2000), pela multiplicidade de canais de comunicação e a grande diversidade cultural e linguística. Segundo os autores, o termo envolve modos de representação que variam de acordo com a cultura e o contexto, sendo mais amplos que apenas a língua. De acordo com os autores, os novos meios de comunicação estão remodelando a maneira como usamos a linguagem, sendo o significado construído de modo cada vez mais multimodal. Discutem, também, a necessidade de “negociar diferenças todos os dias, em nossas comunidades locais e em nossas vidas profissionais e comunitárias cada vez mais globalmente interconectadas”, como uma consequência do aumento da diversidade local e da conectividade global (COPE; KALANTZIS, 2000, p. 6). Os autores apontam para o fato de que o trabalho com patrimônios culturais diversos, expressos por meio de múltiplas linguagens, abrem possibilidades de uma experimentação e de aprendizagens mais democráticas.

O ensino de línguas precisa também e principalmente levar em conta, na contemporaneidade, a variedade dos modos de comunicação existentes. Nessa perspectiva, que se opõe às abordagens educacionais ocidentais mais tradicionais, devem-se considerar os modos de comunicação linguísticos – a escrita e a oralidade – visuais – imagens, fotografias – ou gestuais – apontar o dedo, balançar a cabeça negativa ou afirmativamente, por exemplo. Essa diversidade de modos de comunicação foi incorporada tanto pelos meios de comunicação mais tradicionais, como livros e jornais, quanto pelos mais modernos, como computadores, celulares, televisão, entre outros. 

A BNCC (2018, p. 70) explica que os multiletramentos e as práticas da cultura digital no currículo permitem ao estudante uma participação mais efetiva e crítica nas práticas de linguagem contemporâneas. Porém, ainda mais importante do que se tornar um usuário da língua/das linguagens, o objetivo é que o estudante se torne o que alguns autores denominam de designer: “alguém que toma algo que já existe (inclusive textos escritos), mescla, remixa, transforma, redistribui, produzindo novos sentidos, processo que alguns autores associam à criatividade”

Dessa maneira, a BNCC (2018) aborda novas formas de comunicação que surgiram em decorrência de avanços tecnológicos como relevantes para que os estudantes possam ter uma participação “mais qualificada do ponto de vista ético, estético e político nas práticas de linguagem da cultura digital” (BRASIL, 2018, p. 73). Para tanto, os(as) professores(as) precisam se equipar de conhecimentos relacionados a base teórica e prática dos multiletramentos para que possam, assim, trabalhar a partir dessa perspectiva.

 É necessário também o desenvolvimento de uma nova ética e de novas estéticas, tanto dos(das) professores(as), quanto dos estudantes. A nova ética se refere às aprendizagens relativas à colaboração e interação na rede. As novas estéticas, por sua vez, se referem à produção e ao consumo de textos que possuem características próprias e que impõem novos comportamentos dos leitores e autores contemporâneos.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular – Educação é a Base: Ensino Médio. Brasília: MEC, 2018.

COPE, B.; KALANTZIS, M. Multiliteracies: the beginnings of an idea. In: COPE, B.; KALANTZIS, M. (Ed.). Multiliteracies: Literacy learning and the design of social futures. London: Routledge, 2000. p. 3-8.

ROJO, R. Pedagogia dos multiletramentos: diversidade cultural e de linguagens na escola. In: ROJO, R.; MOURA, E. Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola, 2012.