Para iniciar este breve texto, me sinto no dever de me explicar: do alto da ignorância que o trânsito em minha comunidade imediata me proporciona, dei, por encerrada e até mesmo ultrapassada, a discussão sobre o mito do falante nativo. Claro que, vez ou outra, me deparava com uma valorização do dito falante nativo travestida de roupagens politicamente menos incorretas. Esta semana, no entanto, participei de uma reunião na qual o professor nativo foi veementemente glorificado e assisti, devo confessar, um pouco assustada, a um empresário da educação tentando me convencer de que eu não conhecia o assunto.

A desagradável conversa me rendeu a certeza de que ainda não falamos o suficiente sobre o tema. Diante de minha indignação, me propus a rever minhas convicções a fim de contemplar esta discussão, como faço aqui agora.

A ideia de que existam “donos da língua” origina-se junto às construções de nacionalismo, estado-nação e língua-nação já desconstruídas por diversos autores. Anderson (1989), a fim de compreender todo o imaginário ligado à nação, analisa a “mágica do nacionalismo” a partir dos sistemas culturais amplos que o precedem e o constituem. Anos depois, Bhabha (1995) foi mais longe na análise dos imaginários nacionalistas e os discutiu a partir das teorias tropológicas, ou seja, as próprias nações são narrativas e o imaginário nacional nasceu do poder de narrar, articular ou impedir que outras narrativas fossem formadas. Nesse processo, a consolidação das línguas vernáculas foi um fator determinante na formação dos nacionalismos modernos. A nação implica na existência de uma língua própria, o que fez, por exemplo, com que as variantes dentro de uma mesma língua fossem homogeneizadas. Essa homogeneização possibilitou “o surgimento de uma nova consciência, a de pertencer a um grupo caracterizado pelo mesmo campo linguístico, que por sua vez determina uma fronteira de exclusão” (BLANK, 2008, p.3). E é aí que nossa história parece começar.

Devíamos agora nos voltar para a fúria dos invasores anglos e saxões que remonta os anos de 43 a 410 a.C. Esses povos dominaram os celta-romanos e seus territórios e além de destruir comunidades inteiras, dizimaram também a cultura e a língua celta. Uma nova língua emergiu desse processo, o inglês, oriunda dos dialetos germânicos falados pelos anglos e pelos saxões. Porém, viajaremos no tempo para o início do século XX, ou das grandes invasões europeias e correrei aqui o risco de ser simplória e superficial. Nesse século, o império britânico atingiu seu apogeu e a Inglaterra se consolidou como um estado colonialista. Nesse mesmo período, no entanto, devido às consequências da Segunda Guerra e ao processo de independência das colônias, o império inglês conheceu seu declínio e cedeu lugar aos Estados Unidos da América, que se tornou líder do bloco ocidental. De acordo com Siqueira (2008), a partir de então, os Estados Unidos concentraram grande poder econômico, político, militar e cultural. Em 1989, se transformaram, com a queda do muro de Berlim, em uma “superpotência hegemônica, encontrando no inglês campo fértil para sua expansão global” (SIQUEIRA, 2008, p.55). 

Para analisarmos as especificidades do mito do falante nativo no Brasil, uma vez que sabemos que isso não ocorre somente por aqui, é importante entendermos a configuração do mundo na atualidade. O mundo foi adquirindo, portanto, a partir da hegemonia dos EUA, seu desenho atual, que a partir de Santos (2009), se organiza em dois pólos: o Norte e o Sul Global. O autor explica que essa concepção de Sul sobrepõe-se em parte ao Sul geográfico. Esses países do Sul foram submetidos ao colonialismo europeu e, com exceção da Austrália e da Nova Zelândia, não atingiram níveis de desenvolvimento econômico semelhantes ao do Norte Global, constituído pela Europa e América do Norte. Países do Sul Global, muito embora não tenham mais o status legal de colônia, ainda estão submetidos ao regime da colonialidade, que para além de todas as dominações, exerce também uma dominação no campo epistemológico, ou seja, todas as práticas sociais de conhecimento e seus agentes que contrariam a “missão colonizadora” (SANTOS, 1998, p.208) são desacreditados.

Vivemos, portanto, sob o regime colonial que valoriza e legitima o Norte Global e, consequentemente, seus cidadãos como detentores do conhecimento. Desse modo, as práticas de linguagem atreladas aos construtos de falante nativo e inglês padrão desconsideram e apagam “outros usos e outras práticas que não aquelas percebidas como características dos países centrais que seriam os ‘donos da língua’” (JORDÃO et al., 2020, p.41). 

Nessa perspectiva, excluímos cidadãos, em nosso caso, professoras e professores, a partir das relações de poder que geram discriminação e marginalização e os rotulamos como “não nativos”. O termo falante nativo é, portanto, sustentado como ícone de poder, prestígio e modelo a ser seguido. Parece não importar, desse modo, se o falante nativo se dedicou ou não ao estudo da língua e das didáticas que perpassam seu ensino, para a afirmação de que esses “professores” são melhores para alavancar o desenvolvimento linguístico de nossos alunos. 

Por meio dessa herança colonial, fragilizamos nossos educadores, os colocando em um lugar sempre desfavorável a partir de uma classificação que leva em conta apenas e simplesmente o local de nascimento desses sujeitos e não os conhecimentos apreendidos ao longo da vida acadêmica e da experiência profissional.  Encampamos também pedagogias que não se comprometem com o desenvolvimento da criticidade dos estudantes frente aos desafios e especificidades de cada contexto.

Referências

BENEDICT, Anderson. Nação e consciência nacional.São Paulo: Ática, 1989.

BHABHA, Homi. DissemiNation: time, narrative, and the margins of the modern nation. In: BHABHA, Homi. Nation and narration. New York: Routledge, 1995.

BLANK, Thaís. O Papel dos Cinejornais Alemães sobre o Brasil na “Comunidade Imaginada” Nazista. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Natal, RN – 2 a 6 de setembro de 2008.

JORDÃO, Clarissa; FIGUEIREDO, Eduardo; LAUFER, Gabriela; FRANKIW, Thaina. Internacionalização em inglês: sobre esse tal de unstoppable train e de como abordar a sua locomotiva. REVISTA ÑEMITỸRÃ, 2021, vol. I, num. 2.

SIQUEIRA, Domingos. Inglês como língua internacional: por uma pedagogia intercultural crítica. 2008. 358 f. Tese (Doutorado em Letras e Linguística) − Instituto de Letras, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2008.

SANTOS, Boaventura. La globalización del derecho: los nuevos caminos de la regulación y la emancipación. Bogotá: ILSA, Universidad Nacional de Colombia. 1998.

SANTOS, Boaventura; MENESES, Maria. Epistemologias do Sul. Coimbra. Almeidina, 2009.