Para que consigamos efetivamente transformar, atualizar, repensar uma escola e uma Educação para o nosso país, é imprescindível que tenhamos aliados fortes, inteligentes, engajados e capazes de garantir o suporte necessário para essa empreitada.

Não nos iludamos: a empreitada é árdua, muito espinhosa. Há uma petrificação de conceitos, de arquétipos, uma herança supostamente positiva e que por isso mesmo parece blindada à inovação.

E não me refiro às cidades dos confins do país, nos vilarejos do interior do agreste, nos pampas do Sul… falo dos grandes centros, das maiores capitais de Estado, nos maiores pólos, onde o acesso à informação é intenso e constante. É curiosamente nesses centros que a tradição suplanta e sufoca a inovação nas escolas.

Desculpas como o vestibular ou o ENEM para impedir uma reforma na escola de hoje já não se sustentam mais. Estudos, pesquisas, estatísticas, recheiam cada vez mais o baú de justificativas A FAVOR de uma mudança. Não é mais cabível treinar alunos; urge formar cidadãos aptos a encarar o que ainda nem foi descoberto ou inventado, ou enfrentar problemas que ainda não existem.

Nesse sentido as famílias desempenham um papel frontal.
Qualquer mudança na escola passará por um trabalho de conscientização, de informação, de educação dos pais, das famílias, das comunidades onde as escolas estão inseridas.

Os pais não podem ser considerados culpados pela inação das escolas. Os pais não são educadores. A escola brasileira precisa sim enfrentar sua defasagem em relação aos países desenvolvidos, reconhecê-la e ter a coragem de propor a mudança à sociedade.

A lógica de mercado parece tornar as escolas privadas reféns de demandas dos pais, o que supostamente as impedem de mudar. Entretanto, na verdade a escola evita propor a mudança, simplesmente porque ela trará muito mais trabalho, romperá paradigmas locais e tradições enraizadas, e exigirá postura firme, convicta e decidida. Há o medo da perda de alunos, simplesmente pela proposição de metodologias ainda desconhecidas pelos pais.

Portanto, este é um falso dilema: só a escola pode propor a mudança.
E os pais querem essa mudança; eles talvez apenas ainda não saibam que a querem ou o quanto a querem. Ou o quanto ela é necessária e será benéfica a seus herdeiros.

Será necessário mostrar aos pais o que precisa ser feito. O que já é feito em muitas partes do mundo. Por que é necessário mudar. Como o Brasil e a América Latina situam-se, do ponto de vista educacional, em relação ao resto do mundo. E o que queremos desse país, um gigante que ora acorda, ora volta a adormecer, e caminha a passos de tartaruga em meio a vizinhos que já estão nos passando.

Uma vez que as famílias tenham entendido o porquê da necessidade imediata de mudanças na escola, teremos ao nosso lado um exército de aliados que nos permitirão realizá-las. Qual o pai que não quer ter um filho pronto para os novos e imprevisíveis desafios do século XXI, sem que com isso ele deixe de ser aprovado no vestibular X, Y, Z, além do ENEM? Eu quero isso para os meus filhos.

Mas, prestem atenção: a mudança é inevitável.
Ela não supõe a pilhagem e a recusa de tudo o que já foi feito, mas exige uma profunda reflexão sobre metodologias, práticas, teorias, visando uma atualização da escola face à nova conjuntura em que vivemos.

Nossas salas de aula Fordianas precisam individualizar, personalizar.
Nossas aulas expositivas precisam tornar-se interativas, colaborativas, descentralizadas.

O conteúdo precisa render-se às competências e habilidades.
As salas de aula precisam incorporar as novas tecnologias às práticas educacionais, ao invés de proibi-las, transformando-as em bolhas anacrônicas, verdadeiras voltas ao passado.

O próprio espaço físico precisa sair do modelo linha de produção para o de ambientes de aprendizagem.

O professor precisa deixar de ensinar e ‘dar aula’, para passar a favorecer a aprendizagem e o desenvolvimento de seus alunos através de sua inestimável e não menos importante mediação.

Não mudar, isso sim, será fatal.

O que os pais têm a ver com isso? Tudo. E eles não são o motivo dessa mudança não acontecer em larga escala. Pelo contrário: eles podem ser os principais militantes dessa transformação, desde que saibamos como engajá-los.

Eles querem o melhor para seus filhos, tenham certeza disso.