Deixe-me contar uma história que é pessoal e profissional. Trata-sede  crise e  inovação.

O primeiro celular que usei era do tamanho de uma mochila. Isso foi em 1978. Esse monstro, que na época era de última geração, era tão grande que novas palavras foram criadas para ele, como  “bagajável”  e  “transportável”.

Poder usar um celular naquela época era extraordinário – você sentia como se tivesse entrado em um novo mundo de oportunidades e liberdade. Esta foi uma inovação que levou muito tempo para passar de uma ideia de projeto para nossas mãos como os dispositivos multitarefa que temos hoje.

O telefone celular foi patenteado pela primeira vez em 1917 (pelo inventor finlandês Eric Tigerstedt). Mas foi a crise de guerra na década de 1940 que levou ao primeiro desenvolvimento da tecnologia de telefonia móvel. Então levou mais 50 anos até que este dispositivo se tornasse parte integrante de nossas vidas.

Uma história semelhante à da transformação educacional. Na década de 1960 houve uma crise política no Canadá baseada em torno da linguagem e identidade. Uma resposta foi  introduzir a pedagogia da imersão nas escolas. O entendimento teórico era comum há muitos anos. Refletia o trabalho de pessoas como Jean Piaget (nascido em 1896), Lev Vygotsky (nascido em 1896), Jerome Bruner (nascido em 1915), e nos anos posteriores Stephen Krashen (nascido em 1941) e Mihaly Csikszentmihalyi (nascido em 1934) entre outros que nos deram uma poderosa compreensão de como alcançar a excelência na educação. No entanto, levou muitas décadas para que os fundamentos básicos da imersão se enraizassem em países fora do Canadá. E um dos principais fatores nesse sentido foi o surgimento do Content and Language Integrated Learning (CLIL).

Na década de 1990 houve uma crise na Europa. Como as pessoas poderiam participar da integração europeia se as populações eram monolíngues? Uma resposta foi encontrada no CLIL, que não é apenas o ensino de línguas, nem apenas o ensino de disciplinas. É uma fusão de ambos. Referenciada como a “metodologia comunicativa de ponta” na década de 1980, o CLIL tornou-se agora uma marca registrada de escolas e sistemas de vanguarda. Mesmo com o celular, imersão e muitas inovações houve forças que tentaram, sem sucesso, impedir que a implementação das mesmas fosse realizada. Em relação ao CLIL, poderosas entidades políticas e comerciais a viam como uma ameaça às vendas, à publicação, aos testes e ao capital humano dos chamados professores falantes nativos.

Hoje, em todo o mundo, enfrentamos o maior processo transformador desde a fundação da educação básica obrigatória, há mais de um século. E um dos drivers é o vazio contínuo entre os mundos digital e não digital. Em alguns sistemas e escolas, a situação está se tornando crítica. A diferença é muito grande.

Na educação precisamos fazer escolhas, e rapidamente, se quisermos “ficar à frente do jogo”. Os alunos da Geração Z e A estão correndo à frente e, embora haja muita preocupação por parte de alguns pais e educadores, esta é uma notícia positiva e emocionante – habitar o mundo digital irá trazer alguns benefícios muito importantes em relação aos processos e competências do pensamento humano.

Algumas escolas tentaram manter a digitalização no portão, outras a viram como uma panaceia maravilhosa para aprender todas as matérias. Nenhuma dessas visões podem ser vistas como corretas.

O que funciona é misturar o potencial positivo dessas novas mentalidades e as competências recém emergentes com duas oportunidades educacionais. Em relação à melhoria das habilidades para pensar e usar a língua inglesa, atualmente uma competência essencial do século XXI, o melhor caminho é integrar o aprendizado de idiomas através do CLIL, e utilizar modelos mentais digitais através do uso criterioso da tecnologia de dispositivos móveis – pedagogia integrativa e tecnologia integrativa que capacitam digitalmente os alunos astutos a atingirem o melhor potencial de aprendizagem. Algo que conhecemos há muito tempo mas temos demorado a colocar em prática.

CLIL não é apenas ensino de línguas, nem apenas ensino de disciplinas. É uma fusão de ambos. É aí que ele desafia o status quo (de sempre ter esses temas separados). Realidade virtual e aumentada também são resultado de uma fusão – ambas podem fornecer valor agregado profundo ao que podemos alcançar nas salas de aula usando pedagogia de ponta. O uso de todos esses conceitos nos proporciona experiências de aprendizagem que são mais do que educação.

A integração curricular e tecnológica é hoje uma marca registrada das escolas de sucesso. Parafraseando Carl Jung, quando duas substâncias se encontram a reação leva à transformação de ambas.

Dizem que toda nuvem tem um lado bom. Enfrentamos a necessidade de mudanças transformadoras na educação há alguns anos. Talvez essas semanas em que nossas vidas foram viradas de cabeça para baixo nos darão a oportunidade de explorar como dar os próximos passos para fornecermos as melhores oportunidades educacionais integradas possíveis para nossos alunos e suas famílias. E então poderemos nos lembrar do ditado de Arthur Koestler,  “quanto mais original uma descoberta, mais óbvia ela parece ser posteriormente.