Podemos distinguir duas grandes revoluções da linguagem, já bem documentadas, que tiveram consequências práticas para a organização das sociedades humanas: primeiro, o advento da escrita, por volta do ano 3.700 a.C. na Mesopotâmia.

Depois, a gramatização massiva das línguas – isto é, a compilação dos padrões segundo os quais as línguas funcionam. Embora os primeiros movimentos de gramatização datem do século VI, não se comparam aos processos decorrentes da expansão das línguas inglesa, francesa, italiana, espanhola, portuguesa e alemã, a ponto de protagonizar a história da Europa.

Não é difícil perceber que, desde então, tem havido mudanças de grandeza e impacto comparáveis àquelas duas revoluções da linguagem de séculos atrás. Para listar brevemente algumas delas – que não se resumem à popularização da internet! – temos as tentativas de imposição de línguas europeias a diversos povos americanos e africanos culminando em línguas híbridas chamadas crioulos e pidgins; as diversas razões para aprender as línguas faladas por outros povos, geralmente de ordem política ou comercial; o aumento ou declínio do prestígio de determinadas línguas devido a determinadas relações de poder; os mitos relativos ao modelo do falante nativo de uma língua, como se essa fosse uma categoria homogênea e imutável.

Essas revoluções ocorreram e ainda ocorrem concomitantemente, sobrepostas umas às outras, em complexos processos de dominação e resistência. Não podemos, portanto, acreditar em uma suposta linearidade do tempo, do espaço e do desenvolvimento da linguagem humana.

A mudança linguística é um fato que perpassa toda e qualquer língua viva. O professor de línguas que compreende os motivos para não falarmos ou escrevermos hoje como na época de Machado de Assis, muitas vezes, é o mesmo que critica as novas significações, os novos linguajares, os novos recursos de comunicação oral e escrita dos “jovens de hoje”, alegando que “no meu tempo era melhor”…

Entretanto, o professor de línguas apegado a regras estanques certamente não é o mais capacitado para preparar seus alunos para a atualidade e para o futuro. O professor dos livros de gramática prescritiva, normativa, autoritária, não pode ser o mesmo que instiga a criatividade desses jovens, pois vê com maus olhos a nova revolução linguística protagonizada por eles. O professor preso aos modelos tradicionais, parado no tempo, não é capaz de levar o aluno a evoluir, pois desconhece os próprios caminhos de (r)evolução.

Qual tipo de professores queremos ser? Professores do passado ou do futuro?

Se, para que nossos alunos aprendam, é necessário que saiam da zona de conforto, por que o mesmo não seria válido para nós, professores?