A velocidade das mudanças que temos vivido desde a popularização da internet demonstra que nós já não estamos vivendo uma época de mudança. Mais do que isso: trata-se de uma mudança de época!

Enquanto as épocas anteriores valorizavam a igualdade, isto é, a padronização e a homogeneização dos modos de vida, hoje se tem confrontado essas pretensões de universalização de determinados valores. Sob o impacto das novas tecnologias, novas subjetividades vão sendo construídas.

Ao falarmos em multiculturalismo, temos aí duas perspectivas possíveis: a primeira delas é a perspectiva assimilacionista. Esse ponto de vista procura favorecer que todos se integrem na sociedade e sejam incorporados à cultura dominante. Assim, propõe a universalização da escolarização, sem abrir espaço para a discussão sobre a relevância deste ou daquele conhecimento para a comunidade escolar.

Porém, se em outros tempos os movimentos sociais giravam em torno da afirmação da igualdade, hoje existe um discurso que exalta o direito à diferença.

Cria-se, assim, uma tensão entre o universal e o particular: até que ponto a garantia dos mesmos direitos, a todos os membros da sociedade enquanto “iguais”, soluciona os problemas advindos da diferença?

Daí decorre uma segunda abordagem para o multiculturalismo: a diferencialista, também chamada essencialista ou “monocultura plural”. Aqui, tem-se uma visão estática da formação das identidades culturais, desconsiderando os processos de contato e confronto entre essas identidades. É o famoso identitarismo!

Essa perspectiva pode levar a uma visão essencialista e extremista das identidades culturais – mais ou menos como se todas as pessoas brasileiras, negras, LGBTs, indígenas ou latinoamericanas compartilhassem uma mesma identidade, homogênea e imutável, que não pudesse ser alterada por outros fatores em intersecção.

Daí o nome monoculturalismo plural: culturas homogêneas que não se misturam, de modo que indivíduos pertencentes a elas não possam ter experiências divergentes daquelas do grupo.

Naturalmente, precisamos de uma terceira perspectiva. O multiculturalismo plural, adequado aos intercâmbios por meio de migração e por meios digitais, é aquele pautado na interculturalidade: o prefixo inter representa integração, diálogo permanente, construção conjunta.

A abordagem intercultural se aproxima do chamado multiculturalismo crítico, que consiste em entender que as relações culturais não foram, nem são, pacíficas estão atravessadas por relações de poder, envolvendo preconceitos, discriminações e batalhas diversas.

Portanto, as categorias que constituem a identidade já não são entendidas como estanques e dissociadas de um contexto sociohistórico, mas, sim, como produto das lutas sociais sobre signos e significações.

Segundo essa perspectiva, o papel da educação é despertar para o reconhecimento das diferenças, com o objetivo de construir uma sociedade que articule políticas de igualdade e de identidade. Porém, só conseguiremos atingir esse objetivo se partirmos do questionamento do caráter monocultural que está presente na escola.

Em outras palavras, é necessário reconhecer que a visão predominante de multiculturalismo na nossa sociedade é a primeira: aquela assimilacionista que pretende abranger todos os grupos, desde que estes se integrem passivamente à ideologia dominante. E é esse assimilacionismo que dá origem ao identitarismo estanque!

Uma educação para a negociação cultural envolve resgatar os processos de construção das identidades culturais e promover experiências significativas de interação. Afinal, nenhuma cultura é monolítica, e nenhuma cultura é completa em si mesma. Seres humanos são diferentes entre si.

A única forma de construir uma sociedade plural e democrática é educar para a diferença.