Embora o inglês seja utilizado como língua de interação em cerca de 70 países (EBERHARD et al., 2020), normalmente, na escola, focalizamos o inglês dos países hegemônicos, como Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Isso ocorre principalmente porque os materiais didáticos, em sua grande maioria, evidenciam essas variedades de inglês. 

Não é novidade alguma que haja um número significativamente maior de falantes não-nativos do que de falantes nativos de língua inglesa. Consequentemente, os encontros, nos quais nossos alunos vão fazer uso do inglês, envolverão sujeitos provenientes de diversas localidades com histórias e trajetórias de vida que marcam seus modos de falar tanto em relação ao sotaque quanto as suas escolhas linguísticas.

A esse respeito, Busch (2015) explica que o repertório linguístico do sujeito deve incluir  duas dimensões: as ideologias linguísticas e o que a autora denomina a experiência vivida da língua.

Em relação às ideologias linguísticas, a autora explica que atitudes pessoais relativas à língua são marcadas pelo valor atribuído a ela ou a uma variedade dela em um espaço social. No caso do repertório linguístico, essa ideia está associada ao poder restritivo ou de exclusão das categorizações linguísticas, como, por exemplo, quando falantes de uma língua ou de um modo de falar específico não são reconhecidos, não se percebem como falantes legítimos dessa língua ou são inferiorizados e excluídos. 

Por sua vez, o conceito de experiência vivida da língua possibilita focalizar a dimensão biográfica do repertório linguístico a fim de reconstruir como o repertório se constrói ao longo da vida do sujeito. Busch (2015) esclarece que o que interessa não é apenas o modo pelo qual as habilidades linguísticas são adquiridas e acumuladas ao longo do tempo; mas também, as experiências emocionais e corporais, situações dramáticas ou recorrentes de interações com o Outro que perpassam a relação com as línguas que compõem o repertório linguístico do sujeito.

Megale e Liberali (2020, p.68) elaboraram o conceito de patrimônio vivencial a partir da noção de repertório. As autoras explicam que: 

o patrimônio vivencial é o conjunto de recursos acumulados a partir de eventos dramáticos vividos com o outro, que se materializam (ou não) nos “meios de falar” (BLOMMAERT; BACKUS, 2012, p. 3). Em outras palavras, são todos os meios pelos quais os sujeitos interagem com o mundo, e compreendem e vivem aspectos linguísticos, culturais, emocionais e sociais. 

Tanto a noção de experiência vivida da língua, proposta por Busch (2015), quanto o conceito de patrimônio linguístico proposto por Megale e Liberali (2020), apontam para o fato de que o sotaque ou os modos de falar revelam a trajetória de vida dos sujeitos. O sotaque não é, portanto, apenas  uma maneira particular de determinado sujeito de pronunciar fonemas específicos em uma língua. O sotaque, juntamente com outros aspectos que marcam modos de falar, traz consigo uma faceta identitária, que posiciona o sujeito em relação ao mundo e ao Outro.

Dessa maneira, é importante para formação linguística e política de nossos alunos que nos debrucemos também a “ouvir” e interagir com outros sotaques não hegemônicos, uma vez que eles são carregados de História e, consequentemente, de histórias individuais.

Devemos, como professores/as, nos desafiar a entrar em contato com outros sotaques e, consequentemente, com outras histórias.

Que tal assistir a um filme de Nollywood?, a indústria cinematogáfica nigeriana, uma das maiores do mundo. 

Se uma música te agrada mais, que tal uma canção jamaicana? Já que nem só de reggae vive o cenário musical da Jamaica, o que acha de conhecer o Ska? O Ska é um gênero musical que teve a sua origem na Jamaica, no final da década de 50, combinando elementos caribenhos como o mento e o calipso e estadunidenses como o jazz, jump blues e rhythm and blues.

Na atualidade, músicas, filmes e outros bens culturais oriundos das mais diversas localidades podem ser facilmente encontrados pela Internet. Nos resta, portanto, fazer bom uso dos recursos tecnológicos disponíveis para levar a diferença – linguística, cultural e epistemológica – para a sala de aula.